Joshua tem 13 anos e mora com a mãe e o padrasto em Amarias, um lugar isolado no topo da montanha, onde todas as casas são novíssimas. Na fronteira da cidade, há uma barreira bem alta, guardada por soldados fortemente armados e que só pode ser cruzada através de um posto de controle. Ninguém deve entrar naquele lugar, e quem está lá não tem permissão para sair. Desde pequeno, ele sabe que, do outro lado daquela muralha, há um território violento e implacável e que O Muro é a única coisa capaz de manter seu povo em segurança. Desde pequeno, ele sempre ouviu que, do outro lado, havia um território proibido, um lugar violento e perigoso, do qual um garoto como ele deveria manter distância. Um dia, a bola de Joshua cai do outro lado do Muro e, ignorando tudo o que sempre ouviu, ele vai atrás dela e acaba descobrindo um túnel que o leva a uma realidade que jamais imaginou encontrar. Lá ele acaba caindo nas mãos de uma gangue sanguinária, mas a bondade de uma menina salva sua vida. Porém isso acaba desencadeando um ato de extrema crueldade e o coloca em dívida com ela… Uma dívida que ele fará de tudo para pagar.

Com uma sinopse como essa, O Muro (The Wall, tradução de Rodrigo Abreu) atrai os leitores de fábulas modernas como O menino do pijama listrado de John Boyne ou A menina que roubava livros de Markus Zusak de imediato. Mas de maneira diferente, seu autor, não usa do embasamento histórico para narrar sua história, e sim de uma distopia. E assim que passei pelo O Muro de William Sutcliffe adianto que gostei, mas não tanto como esperava.

A narrativa tem como cenário uma cidade onde a paz reina ou é isso que parece. Amarias é a cidade imaginada por Sutcliffe, onde vive Joshua, o protagonista, um menino que fará refletir através de seus pensamentos e diálogos.  O Muro é uma história carregada de realismo contemporâneo, muros já existiram para separar duas sociedades diferentes ou simplesmente por não ter o mesmo nível aquisitivo que o vizinho e muros seguem existindo, muros para controlar a população. Há também uma analogia a uma população tranquila, dominada pelo receio do que ocorrerá se tudo se perder.

Sensível e não usa da violência para passar a mensagem, se esperas uma distopia com ação e sangue não achará aqui, é mais profundo, e dolorida de que toda história tem dois lados. Narrada em primeira pessoa, sob a perspectiva de Joshua, conhecemos tanto a cidade de Amarias e sua família, como também o que há no outro lado do muro e o que conheces. (Não irei revelar nada por detrás do muro, pois é um dos melhores aspectos do livro).

A identidade é um tema que surge nesta narrativa e não depende de onde nascera, nem de qual é a sua família, e sim, do lugar onde queres viver e a quem consideras tua família. O que Joshua conhecia de lealdade e justiça é virado de cabeça para baixo, e é nesses outros dois temas que o autor constrói essa fábula contemporânea.

Os personagens estão bem construídos. De uma parte encontramos o protagonista mal comportado, mas que a medida que a narrativa avança vai crescendo em amadurecimento, decidido e com bom coração que irá surpreender os leitores ao longo das páginas. Suas reflexões são transmitidas de uma maneira singular, pela forma simples que ver as coisas. O padrasto de Joshua, Liev, é um típico antagonista que segue o tio Válter Dursley de Harry Potter ou o tutor dos irmãos Baudelaire.

O Muro é um livro surpreendente, baseada num futuro bem real, em que um muro separa os privilegiados dos não-privilegiados, e o medo ao diferente e o ódio são a base para sua trama. Com final tão inesperado, que deixarei vocês com isso na mente. Leiam, aguardo comentários.