Uma das coisas que sempre me chamam atenção quando se trata de Stephen King é facilidade inata que tem em escrever longas narrativas. No livro On Writing o autor conta que seu objetivo diário são duas mil palavras escritas, uma quantidade que não é normal entre escritores. Baseado na experiência que tenho, é uma incrível tarefa o que o cara faz todos os dias. E foi em forma de agradecimentos que Stephen e seu filho fazem em Sleeping Beauties’, ao trabalho de seu editor que ao manejar a obra que escreveram tinha uma versão bastante maior que a edição definitiva de 728 páginas.

Lançado pelo selo Suma de Letras da Cia das Letras, Belas Adormecidas, o livro escrito por Stephen King e Owen King, traz em uma narrativa provocativa que aborda temas cada vez mais urgentes e relevantes. Seu filho não é tão prolífico, é seu terceiro livro e não estava seguro de qual gênero encontraria. Após as últimas incursões policiais de King pai, algumas geniais, aqui celebro o seu retorno ao estilo com que estamos acostumados. A ideia original era de Owen e quando apresentou ao projeto ao pai, logo iniciaram os trabalhos.

Belas Adormecidas narra a seguinte história: pelo mundo todo, algo de estranho começa a acontecer quando as mulheres adormecem: elas são imediatamente envoltas em casulos. Se despertadas, se o casulo é rasgado e os corpos expostos, as mulheres se tornam bestiais, reagindo com fúria cega antes de voltar a dormir. Em poucos dias, quase cem por cento da população mundial feminina pegou no sono. Essa enfermidade global que envolve as mulheres, afetando a todas, menos uma que, além de imune, possui poderes inexplicáveis. O livro se divide entre o drama que as famílias passam sobre o que está acontecendo no mundo e a forma que uma a uma vão sucumbindo, enquanto esperam uma solução.

Alguns pontos do livro merecem destaque: em primeiro lugar, a narrativa é colocada como pertencente ao gênero do terror, mas no caso deve ser classificado como uma mistura entre fantasia e suspense, sendo que o argumento se centra a descobrir o mistério que fez as mulheres a ficarem naquele estado. Da mesma forma que Sob a Redoma com o mistério que envolve o invólucro sobre Chester’s Mill. Todo o “terror” que encontramos está na violência e no gore que apreciamos nos livros de King. A descrição de ossos, vísceras e os distintos sons que fazem ao serem rompidos, quebrados e descarnados será o que encontraremos deste terror visceral, comum em sua obra.

Em segundo, o caráter feminista da obra, relacionado com o que está disposto na narrativa, tendo em conta o final. Não só em apresentar um mundo em que as mulheres estão adormecidas – considerando a discussão atual sobre o tema – como também na maneira como as coisas se desenrolam, os autores conseguem especular a história, montando para o leitor se aceita ou não suas conclusões sobre o assunto. Ao terminar a leitura, posso garantir que, mesmo com a dura mensagem no final, Belas Adormecidas dará o que pensar e refletir sobre um assunto que segue afetando o mundo inteiro.

Uma história com um vasto leque de personagens marcantes, que a família King desenvolve bem, pelos caracteres apresentados como realista e chamativo aos leitores. Em especial, a vilã, que respira um ar de mistério e um misticismo impressionante.

Um livro ambicioso que, em minha opinião, provocativo, não decepciona e possui um bom ritmo, apesar de seu volume. Recomendo.