Adriana Armony nasceu no Rio de Janeiro, em 1969. Escritora, doutora em Letras pela UFRJ e professora, é autora dos romances A fome de Nelson, Judite no país do futuro e Estranhos no aquário, premiado com a bolsa de criação literária da Petrobras. Com Tatiana Salem Levy, organizou a antologia Primos: histórias da herança árabe e judaica. Acaba de lançar o romance A Feira. Fizemos quatro perguntas para a escritora. Confira abaixo:

1 – Seu livro “A Feira” apresenta personagens que são minuciosos desenhos de tipos de escritores. Falam de literatura, escrevem livros, estão participando de feiras, mas seus perfis são muito dramaturgicamente bem resolvidos na estrutura do desenvolvimento da narrativa. Não soam esquemáticos. Como você os pensou dentro da trama?

Minha intenção foi justamente escrever uma sátira que fugisse ao puramente esquemático. Os personagens não são mostrados apenas como tipos; busquei retratá-los com carne e história pessoal. Eu diria que, mais do que pensar os personagens dentro da trama, pensei a trama dentro – ou a partir – dos personagens. Na primeira parte do livro, Preliminares, eles se agitam em torno da festa de abertura da Feira, e se revelam em cenas. Cada uma delas é uma pequena totalidade em que os personagens se revelam pela ação e pelo monólogo interior. O livro nasceu destes retratos em que os personagens, apresentados numa situação, mostram ao leitor seu drama: seus desejos, suas memórias, sua voz. Na tensão entre fluxo de consciência e ação, entre personagem e trama, procurei construir a narrativa.

2 – O teu livro, não tentando comparar, lembrou-me os filmes corais do Robert Altman em que ele desenvolvia grandes temas americanos, indo fundo numa sátira, num painel. Em literatura, por aqui, não vemos muito esta veia radiográfica, e você faz muito bem! Qual é o perigo ao escrever sobre algo que para você é tão perto, para que não caia em caricaturas?

Não tinha pensado nisso, mas a comparação me agrada! A feira procura fazer um painel de um meio literário, com uma diversidade de personagens e histórias entrelaçadas. Só que, numa sátira, o perigo da caricatura está sempre à espreita. Me parece que a chave está na modulação da distância do narrador: quanto maior a distância, maior a caricatura. A ironia seria esse olhar duplo em que a distância não dispensa uma proximidade. No caso de A feira, minha intenção foi criar um olhar irônico, ao mesmo t empo distante e próximo, impiedoso e compassivo do narrador sobre os personagens.

Por mais próximo que o tema esteja da minha experiência, o livro não se propõe um roman à clef  (ou seja, aquele romance que retrata pessoas específicas, cuja identidade se oferece à descoberta do leitor). Procurei dar a cada personagem uma individualidade irredutível, ao mesmo tempo que atribuir a eles determinados clichês. Mas esses clichês – ou pelo menos assim espero – não apagam o aspecto vital; eles são fruto ao mesmo tempo de um sistema e de uma natureza humana em que todos podemos nos reconhecer. Poderia ser um congresso cient&iacu te;fico, um evento empresarial ou qualquer outro espaço em que o ser humano disputa reconhecimento e prestígio. Minha ideia é que esses personagens somos todos nós, e, ao mesmo tempo, nenhum de nós.

3 – Há um certo desenho que você faz do meio editorial do processo constituinte de produzir os livros, e que circulam pelos meios como uma feira, lugar de circulação e divulgação de obras literárias. O produto livro é condizente hoje em dia com os seus meios de promovê-los? 

É uma relação ambígua, contraditória, e talvez daí venha a minha opção pela ironia. O próprio título contém essa duplicidade: a Feira Literária divulga e valoriza livros e escritores, mas eles são produtos de feira – tanto a obra quanto o autor.

O problema ocorre quando livro e escritor se reduzem aos clichês propagados pelas mídias (e as feiras são também midiáticas). Muitos livros mais vendidos são apenas isto: vendidos, e não lidos.

A literatura será sempre essa comunicação secreta entre autor e leitor. A questão é: como uma obra pode encontrar os seus verdadeiros leitores? Hoje, no cipoal de textos produzidos (alguns por não-leitores) e na escassez (ou na colonização) das instâncias legitimadoras, esta é uma tarefa inglória. Os prêmios são a porta de entrada para um mundo em que poucos são vendidos ou lidos, em um país marcado pelo analfabetismo funcional. Daí a disputa central do livro pelo Prêmio.

4 – Qual relação ideal no momento atual de produção de livros no país que você acharia mais consistente entre o autor e editor? Há uma demanda maior de participação do autor na divulgação da obra?  Digo, principalmente, nas editoras pequenas e médias.

Na minha experiência, hoje, e não apenas nas pequenas e médias editoras, espera-se que o autor seja o principal responsável pela divulgação da obra, seja pelas mídias sociais ou por meio de eventos. Talvez pela quantidade de pessoas que escrevem, se autopublicam ou enviam originais, talvez pela perda de parâmetros de qualidade ou de potencial popularidade, as editoras costumam apostar pouco, preferindo publicar o que já apresentou resultados concretos, sobretudo em tempos de crise como os nossos. Enquanto pequenas e médias editoras não têm dinheiro ou estrutura empresarial para fazer marketing e distribuição, as grandes, num mercado de muita oferta e pouca demanda, em geral preferem investir em cavalo premiado. Mas essas são apenas impressões de uma escritora, que enxerga o mercado a partir de sua posição peculiar. Não saberia dizer se esse é um fenômeno especificamente brasileiro ou se ocorre de forma semelhante em outros países.

E literatura brasileira costuma vender pouco. Acredito que isso se deva a uma combinação de fraqueza de políticas públicas de educação e de leitura, ao nosso colonialismo cultural, ao nosso sistema de circulação e divulgação, de editores a livrarias, e, em certa medida, a uma parte da própria produção literária, distanciada do leitor. As feiras seriam uma forma de superar alguns desses fatores, mas correm o risco de sucumbir à sua própria espetacularização. Mesmo assim, ao meu ver o saldo é positivo: de tudo, sempre é um espaço aberto para este mistério que é a comunicação secreta da literatura.