Lucrecia Zappi (Buenos Aires, 1972) é escritora, jornalista e tradutora. Cresceu em São Paulo e fez o colegial na Cidade do México. Cursou artes plásticas na Academia Rietveld (Amsterdam), jornalismo em São Paulo. Há dez anos em Nova York, fez mestrado em Criação Literária na NYU e é colunista da Revista Pessoa.

Seu primeiro livro, Mil-folhas (CosacNaify, SP, 2009), ganhou o prêmio Bologna Ragazzi, em 2011, e o romance Onça Preta (Benvirá, SP, 2013) foi traduzido pela autora para o espanhol. Saiu no México (Pollo Blanco, Guadalajara, 2014) e na Espanha (La Huerta Grande, Madrid, 2015). Acre é seu segundo romance, lançado no Brasil pela Todavia e na Espanha pela La Huerta Grande. No momento Lucrecia prepara seu terceiro, ainda sem título. Fizemos quatro perguntas à escritora. Confira abaixo:

1-) Você, de forma bem interessante, não dá chaves de leituras para um enredo que tem pautas muito atuais e relevantes como dos excluídos, das pessoas que vivem à margem da sociedade, e da questão de gênero também. Como você pensou seu romance para que ficasse desta forma? 

Inicialmente estava mais preocupada em contar uma história a partir da perspectiva do Oscar. A temática dos excluídos foi surgindo à medida que São Paulo foi crescendo diante dos olhos de Oscar, que é um tipo bastante conformista. Quis explorar suas faltas de escolhas na vida, o porquê da sua identidade. E daí, claro, no momento em que ele sai do seu apartamento, os moradores de rua começam a pipocar e você percebe que Oscar vive uma existência claustrofóbica não só por não se expressar em momento algum dentro de casa, mas também fora, onde ele escolhe andar pelas beiradas das ruas para não ter que lidar tampouco com os “problemas dos outros”.

2-) Personagem para você seria as escolhas que ele toma no percurso da sua vida? Cada personagem seu, como Marcela, Nelson, tem uma bagagem de experiências acumuladas. Porém o mais bacana, é que os personagens flutuam numa espécie de penumbra existencial. Eles são setas de um desconforto que não é sociologizada por você. Fale um pouco disso? 

Penso na relação do lugar-comum com o lugar-nenhum. Acho que essa penumbra existencial que você cita tem a ver com uma espécie de nostalgia, ou uma série de memórias esquecidas. Eles sabem que elas estão lá, em algum lugar, apesar de não saber mais exatamente quais são elas. Acho que quanto mais a gente se distancia do passado, mais a gente se esquece das coisas, mas o pouco que se lembra tende a ganhar profundidade. E é aí que onde os personagens nascem para mim. Então esse estado existencial que exploro se torna meio flutuante, se mantém em suspenso. A cada passo que dão, meus personagens em Acre se reacomodam no mundo, ouvindo seus sons, que por sua vez quase os fazem lembrar de algo. É como, depois de acordado, andar por aí tentando juntar os pedaços de um sonho no decorrer do dia, para tentar dar sentido a ele. No final, ficam só aproximações, quando muito interpretações.

3-) A trama sobre o Acre entra de forma muito eficiente no enredo, mas não de forma cheia, como foi este processo de colocar elementos do passado de Nelson no Acre para o leitor ter algum tipo de olhar sobre ele?

Queria explorar o olhar do narrador que se forma a partir de uma fixação, e no caso de Oscar, era situar seu inimigo, Nelson. E situá-lo em um lugar que nunca esteve, que é o Acre, torna-se um exercício imaginativo interessante, ainda mais quando a pessoa representa uma ameaça, uma tragédia iminente. A trama sobre o Acre vai então preenchendo os silêncios do cotidiano do Oscar, queria que o leitor realmente se lembrasse do Acre quando Oscar ficava calado.

4-) Você tem uma escrita muito visual. Já recebeu proposta de algum diretor para adaptar seu romance? Você já escreveu roteiros para TV ou cinema? 

Não recebi nenhuma proposta não. Seria divertido tentar escrever roteiros, nunca o fiz. Acho que focaria muito nos diálogos. Com relação à memória, teria em mente a fotografia do filme, pensando na abertura pequena do diafragma, talvez concentrando mais luz, dando maior nitidez às coisas, produzindo maior profundidade de campo. E, quanto mais eu olhasse por essa fresta, mais essa espécie de paisagem esquecida se reinventaria. Tá vendo? Você me pergunta de roteiro e eu já estou me sentando na cadeira do diretor!

Enfim, acho que seria muito bacana escrever roteiro. Mas guardo minha distância por enquanto, tentando justamente não me influenciar muito pelos filmes que vejo porque o texto, acredito, tem outra forma de provocar a imaginação, e uma delas é justamente deixar com que as mais variadas imagens fluam na cabeça do leitor.