Quatro perguntas para a escritora Márcia Barbieri

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Márcia Barbieri é paulista, mestre em Filosofia e formada em Letras. Participou de várias antologias e tem textos publicados nas principais revistas literárias. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do Pílulas contemporâneas. Publicou os livros Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus (ed. Multifoco), Mosaico de rancores (no Brasil pela Terracota, na Alemanha pela Clandestino Publikationen) e A Puta (ed Terracota) e o romance O enterro do lobo branco (ed. Patuá). Todos os livros podem ser adquiridos pelo site das respectivas editoras. Fizemos quatro perguntas à autora. Confira abaixo.

1) – Sua voz narrativa me lembrou a do João Gilberto Noll, principalmente na sua obra-prima, Fúria do Corpo, onde o narrador não é nomeado e se recusa à ser rotulado. “Meu nome é carne tatuada” uma frase do livro. Como você chegou a esta forma de narrar?

Primeiro é importante dizer que admiro imensamente os livros do João Gilberto Noll e sua forma de expor os corpos dentro das narrativas. Na minha concepção, a feitura dos livros está intimamente ligada aos movimentos e fluidos corporais, o texto parte de uma sensação para desembocar em outras sensações, é uma forma de tocar o leitor sem precisar utilizar as mãos. O fato de não ser nomeado o narrador não foi algo pré-estabelecido, surgiu durante o processo, acho estranho quando escuto a sonoridade do meu nome pelas bocas alheias, porque embora tentemos provar que somos muito particulares, soamos como simulacro de outros homens, como homens de outros tempos… Quando nomeio a quem nomeio? Talvez seja apenas uma intenção de simplificar…

2) – O corpo no seu romance é um território de experimentações, o narrador perde a perna, mas mantém uma sexualidade fluida, ao mesmo tempo, tua forma de narrar não é linha reta a algum tipo de enredo redondo e definitivo. É uma ideia muito interessante falar de algo tão material ( corpo) de forma à não situá-lo objetivamente. Fale sobre isso.

Sim, desde “A Puta”, talvez antes, mas a partir de “A Puta” de forma mais consciente quis tratar da temática do corpo, da nossa relação com o corpo, da nossa rejeição e dos nossos conflitos em relação aos desejos, o corpo é um território de experimentações, não apenas no meu livro, eu o considero dessa forma, embora seja sempre um corpo deslocado e insatisfeito. Talvez seja difícil situá-lo objetivamente porque o confundimos com algo imaterial. Temos vergonha do corpo e da dominação pelo corpo.

3 ) Há uma procura do narrador por nomes de mulheres que podem acabar sendo um só mulher dentro de suas potencialidades do feminino. A sua própria masculinidade está fluida e fragmentada no decorrer do romance. Embora haja uma concepção machista do narrador de confronto e competição com o outro que seria casado com uma das mulheres que cita no livro. Como você desenhou não no personagem em si, mas na própria máquina literária que construiu esta sexualidade desterritorializada?

A ideia principal da troca de nomes da personagem era mostrar o quanto, às vezes, as mulheres se sentem fragilizadas nas relações com os homens, como se sentem substituíveis, assim não importa muito ser chamada de Alice, Esther, Estela… Os nomes nomeiam, porém não nos singularizam. Somos igualadas durante a cópula. No fundo, a maioria das relações afetivas é conduzida pela fúria do homem e pela dominação masculina, a qual não enxerga muitas nuances, mudamos de corpos, no entanto, não modificamos as condutas, somos todas uma só ou qualquer uma.

4 – Há em seu tom de escrita uma questão, me corrija se estiver errado, de ritual, ritualística na própria estrutura do romance, nos trechos onde você bota em colchete, ali há um som ritualístico de escrita? 

Sim, no começo a ideia era escrever uma espécie de profecia, algo apocalíptico, mas com elementos positivos, fim de certas estruturas fixas, durante a escrita isso foi se modificando um pouco, talvez tenha ganhado um tom fúnebre. Porém, a ideia de expectativas sobre o tempo futuro tenha se mantido, porque é constante projetarmos nossos corpos para o além, para o abstrato, onde tudo é promessa de coisas infindáveis.