A escrita tem dois sentidos respiratórios: a inspiração e a transpiração. É como se um escritor puxasse ar para dentro. Mas não para a cavidade pulmonar. E sim para sua mente; lugar dos fluxos. É claro que esta tomada de ar está conectada à percepção do que o autor filma com sua câmera-olho. A transpiração seria a retirada dos aquivos gravados, dos takes armazenados semiotizados pela linguagem escrita.

Um roteiro papiro seria uma espécie de arqueologia perdida, como um diário esquecido por um ente que espera pacientemente  que alguém ache sua história e o reproduza para o futuro. Fumar é esperar o futuro pacientemente, tanto que o ato de fumar é colocar um cigarro na ponta do outro indefinidamente… Uma bengala sentimental que dá prazer ou algum barato lúbrico à quem o experimentar.

A passagem do tempo é um aspecto do diário. Talvez um pouco cronometrado e organizado. Assim como a ansiedade é um aspecto emocional da vontade férrea de fumar. Como a bagagem de alguém pode ocasionar-se pesada, sua história de agora, esta que Joaquim tenta suportar enquanto tenta parar de fumar. Joaquim que não está muito bem relacional com a esposa, Madalena, artista plástica que passa o tempo no seu Ateliê.

A procura do narrador, Joaquim, é pela travessia da sua vida em narrativa literária. Desde cedo teve a curiosidade pelo aspecto fabular da histórias, lia bastante, fez curso de letras. O distanciamento crítico não é bom para escritores, pode ser bom para arqueólogos que estão à milhares ou milhões de anos de seu enredo de uma trajetória narrativa que sumiu.

Assim como este leitor que não tem distância crítica nenhuma para o que está lendo, este Diário da casa arruinada, do escritor Tiago Feijó pela Editora Penalux. Sua forma lenta e ondulante de dirigir o texto, pois há uma marcha que põe esta narrativa à andar maravilhosamente bem. Talvez a pontuação melódica onde um certo teor fleumático do vocabulário muito bem dosado com a ação narrativa junto ao mote servido por Tiago que é o cigarro: esta maravilhosa ampulheta do sofrer-ansioso.

O que torna o texto do autor eficiente é o labor extremo em poetizar cada fleuma de entonação e sentimento do narrador, como se o leitor fosse puxado por um trago-ledor; aquele que puxa a nicotina-texto para dentro dele.

A consciência do narrador perante seu ato de deixar de fumar o faz ser um organismo cambiante, fluido, ao sabor dos acontecimentos. Sua filha pequena Selene, batizada com o nome grego dado à lua (aqui uma possível referência  aos perdidos em noites sonhadoras) numa noite cuja vacuidade em termos de firmeza em manter um casamento é contrabalançada com um frêmito por voltar a inspirar fumaça de novo.

O efeito de narrar também é um narcótico. Assim, o narrador tem uma dupla hélice de fricção: se acalmar e (resolver) um casamento ruidoso onde Madalena se descola no decorrer da narrativa de uma vida conjugal, e o tipo de apego que Joaquim tem ou poderá ter com relação à uma vida compartilhada.