Há duas formas de relações de algum tipo de neurose familiar: sair para dançar com alguém fora do núcleo e aí descobrir-se no mundo, ou cristalizar-se num núcleo em si mesmo onde só se vê ao mundo através de uma janelinha pequena e escura onde entra pouca luz.

Aqui façamos uma brincadeira verbal entre duas palavras que possuem grafia parecida. Célere – célebre.

Célere – seria algo feito de forma rápida e sucinta, sem deixar rabo para atrás. Que não deixa questões para atrás.

Célebre- Algo ou pessoa que é importante num tipo de status social. Que nutre algum tipo de fama por seu status ou comportamento.

No livro O Lado Imóvel do Tempo, do escritor Matheus Arcaro pela  Editora Patuá, somos apresentados a uma família cujo seio nuclear traz um recorte um tanto neurótico por parte do pai Elias. Dentro de um escopo paterno diríamos que ele é um tanto autocentrado em seus afetos e princípios religiosos.

Salvador cresce naquela forma de não olhar o mundo como elo de ligação entre sua família e o entorno que é o que gira registra as emoções e afetos de uma criança em formação. Prefere ficar parado e cristalizar algumas emoções e recalques que nutre pela figura paterna.

A mãe por quem ele nutre afeto e admiração não rivaliza com o marido. Ele também está escorado num tipo de fixação por ela, mas sendo assim, por que ele não chama alguém de fora para dançar?

A roda, o movimento, ele faria de si um outro círculo de afetividade quebrando o círculo primevo que é a família. Salvador cresce e trabalha num banco.  Não contente, pois a rigor suas emoções são estagnadas como o assento de um banco que não roda e não gira. Ele escreve  poemas e os forma em livros. Relaciona-se com Suzana e tem amigos que vão no dia do seu lançamento.

Aí a dança que não dançou, o quarto que ao invés de ser aposento, era um lugar de cela de calabouço. Salvador botou alguns planos na cabeça. Queria fugir de um tipo de anonimato, pois já cristalizado pela vida inteira, ser o mesmo sem nenhum tipo de reconhecimento pela estrada à fora. Começa então a assassinar pessoas que lhe são próximas ou não, numa projeção ao futuro de ser tornar célebre, de usufruir de uma fama ou reconhecimento dos seus atos.

Aqui a partir deste ponto, Matheus alia dois pontos numa discussão muito pertinente no seu romance sobre crime e redenção, sobre que relação descabida pode haver com a arte entrar  como um lugar onde fama e celebridade atuam sem nem um rigor moral sem um senso de contenção.

Numa sociedade diluída onde a liquidez é certa através de relações frouxas e mercantilizadas, na qual o crime traz dentro de si um fascínio de mídia e deslumbramento, Salvador crê quase como uma prece que seus crimes serão ponderados, não pelo seu status de delito ou afronta à sociedade. Mas sim que sua imagem irá se perpetuar na mente dos outros, irá ser lembrada por muito muito tempo.

Cotação: Muito Bom