Um navio encalhado na beira de uma  praia em Portugal, este quadro em P&B sempre me chamou atenção  no filme Terra estrangeira do diretor Walter Salles. Talvez por não só emoldurar o filme, mas ganhar uma certa autonomia com relação a ele. Talvez uma simples metáfora de um objeto fora do seu lugar. O mar:esta ponte que liga continentes, um horizonte para outro mundo – uma espécie de travessia das identidades/línguas.

Carregamos os pais, mesmo quando longe, quando atravessamos o oceano. Esta sensação de exílio que o mar nos trás é uma afetividade de saudade que nos toma. O mar é salgado pois sua corrente é a da saudade/lágrima. Principalmente das escolhas que são bifurcações de destinos, onde o que deixamos é a ausência sentida.

No livro romance, Tua roupa em outros quartos (editora Patuá), de Antonio Pokrywiecki o narrador Fernando, em Portugal já há algum tempo, não deixa os pais no Brasil. Não há alguma saudade na travessia dele, como os personagens de Terra estrangeira que vão para Portugal em busca de horizontes novos. Nando tem em Portugal uma família, com seu pai e mãe. Mas mesmo com eles, sente-se um forasteiro. Tem sintomas de pânico em certos lugares, parece que seu corpo não é adaptável ao meio social em que vive. Seria Nando um errante? Uma espécie de andarilho que não enraiza uma tradição, começando pelo núcleo familiar?

Num show com um amigo ele conhece Margarida, uma portuguesa, uns oito anos mais nova que ele. Depois do flerte engatam um relacionamento. Viajam juntos para Espanha e ele passa a ficar no apartamento dela. Já havia tido um relacionamento com uma brasileira que mora e estuda em Portugal, e ele em certo momento vai visitá-la com a Margarida. É do caráter fluído não fechar traços ou laços, um amor líquido é não estabelecer confiança no outro.

Todo contato íntimo é um terreno de depósito de sedimentos que vão ali formando um solo, alguns arenosos, outros como pedra: elemento fundador. Há pessoas que viajam para se sedimentar em outro lugar, criar raízes no exílio e não se sentir estrangeiro. Nando se sente deslocado inclusive quando critica os portugueses pelo seu comportamento cultural. Torna-se agressivo e não lida bem com um certo rompante de ciúmes quando vê Margarida com outro. A ira é um tormento que traz à mente, uma revolta, um estado de desgoverno, algo como uma  natureza que se encalha na própria terra.

Aqui faço um adendo. Nando é o narrador do livro. Portanto, passamos nós leitor, por sua leitura dos fatos. Ele é o leme desta narrativa. Singramos o mar da sua loucura pela sua linguagem. Não há sequer a figura de um narrador escondido na pele de um autor que mexa com os fios da ficção.

O olhar do estrangeiro quando chega a um ponto remoto do planeta é carregar dentro de si elementos que o faça identitário mesmo na estranheza, mesmo na rude face do amor não único. É certo que cada pessoa singularize a outra numa espécie de pátria onde reconhecemos mitos – arquétipos de nossa tradição. No filme, Terra estrangeira, o navio visto pelos dois personagens não causa algum tipo de repulsa ou raiva. Causa sim, uma certa melancolia ligada às sensações nostálgicas. E como se eles próprios tivessem ou fossem espelhos – espíritos desta mesma afetividade de ancoradouro, mesmo que seja à beira da praia.