Truman Capote abandonou todos seus pertences num pequeno apartamento alugado em Nova York após receber uma bolada com o romance “Outras Vozes, Outros Lugares”, entre eles quatro cadernos de “Travessia de Verão”, romance que Capote nunca considerou excepcional e declarou por toda vida ter destruído.

Capote ~ como Dylan ~ nunca encontrou motivos para se restringir à realidade, assim quando o romance foi encontrado cinquenta depois, graças ao antigo zelador que guardou alguns pertences do escritor, até mesmo pessoas próximas do falecido escritor se surpreenderam com a notícia.

“Travessia de Verão” é sim um livro singular, daqueles que carregam o atrevimento das almas jovens, vívidas e latejantes no desejo de pertencer ao mundo. Definitivamente mais cru que “Bonequinha de Luxo” ou “A Sangue Frio”, escritos nas décadas posteriores, o inconfundível estilo de Capote torna a leitura do pequeno romance deliciosa.

“Grady nunca passara o Verão em Nova Iorque, e por isso nunca conhecera uma noite como aquela. O tempo quente abre o crânio a uma cidade, mostrando o cérebro branco, e o coração cheio de nervos, que crepitam como fios no interior de uma lâmpada. E emana um cheiro acre sobre-humano que faz com que as próprias pedras pareçam de carne viva, ligadas e a pulsar. Não era que Grady não estivesse familiarizada com o desespero acelerado que uma cidade pode produzir, pois já vira todos os seus componentes na Broadway. Só que aí fora algo a que assistira como espectadora, e na qual não tomara parte. Mas agora, não havia saída possível: ela mesma era um dos participantes.”

O romance acompanha o verão de Grady McNeil, uma jovem aristocrata que consegue driblar seus país e ficar sozinha no apartamento da família em Nova York para se entregar num romance proibido pela sua condição social.

Esse é o ponto de partida para o intrigante retrato da sociedade na cidade que já se tornara o centro do mundo, da idiossincrasia social e absurdos costumes de época às reflexões do jovem que se consagraria como um dos maiores escritores do século XX, Travessia de Verão é tudo que se pode pedir numa leitura bucólica (num parque, numa praia,…). Acredite!

No Brasil o livro foi lançado pela Alfaguara numa edição bastante competente, como é de costume da editora.

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