Em seu segundo álbum, “Alagbe”, o músico e compositor André Sampaio se aprofunda ainda mais nas raízes africanas. “Pra mim realmente foi algo natural”, disse ele em entrevista à Revista Ambrosia. Confira a conversa abaixo:

Ambrosia: Você não usou apenas de influência da música africana, conceituou o álbum com uma matriz forte da tradição sonora do continente. Como pensou, em todo processo, da poética ao som, esta linhagem?

André Sampaio: Pra mim realmente foi algo natural. Meu trabalho solo nasceu de viagens pra África (Moçambique em 2009/2012, Mali e Burkina Faso em 2012) e do encontro das tradições musicais com as quais convivi e aprendi por lá com as nossas tradições afro-brasileiras e com uma musicalidade que vem sendo chamada de afro-contemporânea, a música negra universal – que passa pelo jazz, rock psicodélico, blues, dub, reggae, etc.

Em “Alagbe” sinto que essas vivências e pesquisas (muito mais na experimentação e no aprendizado através da oralidade) amadureceram e tomaram corpo, apontaram pra outras direções, algumas até inesperadas – o que torna o disco ainda mais interessante pra mim.

O ponto de partida é esse olhar de um alabê guitarrista sobre questões envolvendo tradições e modernidades, e como a música pode aproximar nossa família espalhada pelo mundo e oferecer novas possibilidades e respostas aos problemas que enfrentamos. O alagbe, assim como os griôs em África, como os mestres de capoeira, coco, samba-de-roda, etc. no Brasil tem a função de através da música reconectar ancestralidade e atualidade, sutil com concreto, comunicar. Esse disco é também um depoimento sobre o poder comunicador da arte e especificamente da arte sonora.

Agora isso tudo é reflexão sobre o fazer, na verdade venho muito do fazer, da ação e da experiência. O rock é visceral e isso faz muito parte de mim, além de na sua origem e essência ser música negra. Esse disco diz muito da minha formação desde a criação em Vila Isabel, entre terreiros de umbanda, samba, bailes funk e charme, passando pela capoeira angola e pelo candomblé, além do contato forte com o coco pernambucano e essas heranças dos cantadores de nossa terra.

A: Sua guitarra tem o timbre e os acordes mais suingados das células rítmicas do fraseado das melodias de lá. Como foi achando estas linhas de acordes que ficaram ótimas?

André: Ah, obrigado mesmo por reparar! Algumas músicas partem de fragmentos que vão acontecendo quando pego a guitarra influenciado por esses grooves. Aprendi um bocado em África com mestres griôs guitarristas e também ouvindo os discos de Ali Farka Touré (Mali) e outros grandes guitarristas de lá. As vezes parto de música tradicional também, mas com a referência do que os músicos de lá fazem que é interpretar os temas tradicionais com sua própria linguagem.

A polirritmia (quando ritmos se combinam pra gerar um outro ritmo híbrido) é a característica chave da musicalidade africana pra mim e muitos estudiosos. É uma riqueza enorme de combinações entre melodias que tem sua origem nas línguas locais com essa rede complexa e harmoniosa de ritmos sobrepostos que influenciou muito nossos ritmos negros do Brasil e da diáspora como um todo.

Agora eu assumo a guitarra como protagonista e elemento chave pra tecer essa teia e ser a “voz” da parte instrumental como os guitarristas de rock e blues que curto (Hendrix, Santana, Jimmi Page, Muddy Waters, Clapton, BB King, entre tantos). Em outros estilos africanos modernos ela aparece mais como acompanhamento rítmico. Pra mim é ela quem conduz e se expressa – “chora” como dizemos na capoeira angola.

A: Como tematicamente você puxou o candomblé para seu álbum? Você alinhou alguma temática da religião para servir de tema sonoro?

André: Sou iniciado Ogan Alagbe (lê -se alabê) no candomblé Ketu, na casa de Mãe Beata de Iyemanjá na baixada fluminense/RJ. Nós somos os guardiões da música e dos instrumentos sagrados e nossa função dentro da religiosidade é justamente através da música conectar os ancestrais com o tempo do agora.

Pro povo de axé não há diferença entre a vivência dentro dos Ilê Axés (casas de axé) e o que vivemos fora das portas, pois a todo tempo acreditamos que estamos em contato com os orixás – nossas divindades – eles estão em tudo a nossa volta e dentro de nós mesmos.

A música “Alagbe” retrata essa visão do sagrado como tudo que nos permeia e também busco traduzir uma relação com o sutil que aprendo no meu dia-a-dia como filho de axé, saindo do lugar da folclorização e dos estereótipos que a meu ver não ajudam na luta pelo respeito a nossa fé.

Então não se trata de reproduzir nosso sagrado mas de se propor a falar a partir do prisma de um alagbe guitarrista, que busca aproximar ancestralidades e contemporaneidades através da arte e também dar voz a muitas dessas outras africanidades e frutos da diáspora.

É também um manifesto pelo respeito a nossas tradições e nosso direito de livre expressão da fé, muito ameaçado pelos constantes e crescentes ataques fundamentalistas que temos sofrido. Minha mãe de santo – a grande Iyalorixá Beata de Iyemanjá que nos deixou recentemente em maio passado – foi uma grande liderança na defesa do povo de axé e das chamadas minorias e nós temos como missão continuar seu legado. Toda esse retrocesso e violência religiosa tem um fundo pouco falado que é o do racismo religioso e institucional, pois nossa religiosidade abriga um leque muito maior que é o complexo cultural de matriz africana – por isso também os ataques, numa época em que a diferença e a diversidade tem sido tão perseguidas.

A música é também nossa arma – como dizia Fela Kuti – e vamos seguir usando ela pra questionar e propor outras formas de ver e atuar no mundo, diferentes das normas impostas que estão visivelmente em decadência. Novas respostas pra velhas perguntas.

A: Fale-me um pouco do coro. Ficou muita bacana, você não usou naipe de metais na gravação do seu álbum. Porque optou pela ausência de metais?

André: Meu jeito de cantar vem muito da capoeira angola, do candomblé, do coco, samba-de-roda, partido alto. Minha influência é muito dos cantadores que usam o canto-resposta – onde o “puxador” canta e o coro responde – como elemento fundamental. O transe desse jeito de cantar aliado aos grooves e fraseados de guitarra trazem muito dessas ambiências africanas e diaspóricas. No disco, tivemos a participação de Kuky Lughon (Ponto de Equilíbrio) e da cantora moçambicana Lenna Bahule que deram timbres e uma expressividade muito especiais pros coros.

A opção pela ausência de metais foi justamente pra dar o protagonismo instrumental pra guitarra, assumindo a estética afro-rock e também se diferenciando do que vem sendo produzido como música afro moderna por aqui – muito calcada nas orquestras de afrobeat e na onipresença de naipes de metal.

Foi uma das muitas contribuições do Cris Scabello (Bixiga 70), produtor do disco junto comigo. Ele tirou o meu melhor enquanto cantor, guitarrista e compositor e também incentivou e deu muita segurança ao tomar essa escolha que no fundo era um desejo já antigo e reflete as formações de banda ao vivo que venho fazendo, com um formato mais próximo das bandas de rock do que das orquestras.

A: Me conte um pouco das participações do tecladista do Bixiga 70 e de outros músicos na gravação do disco. E me fala um pouco de como está a divulgação?  

André: Temos algumas participações muito bacanas no disco: o próprio Cris Scabello gravou guitarra em “Quem Sabe”; Maurício Fleury (também do Bixiga 70) e Marcos Maurício da Nomade Orquestra gravaram os teclados do disco, misturando timbres vintage setentistas com synths e sons mais modernos; Okwei Odili da Nigéria canta comigo “Stop Fighting Immigrants” – uma das minhas favoritas pela atualidade do assunto e pelo hibridismo musical; Lenna Bahule participa de “Djarabi” com seus timbres cristalinos e que remetem a “cachoeiras de sonho” africanas; Meu grande parceiro e mestre da guitarra mandinga Sekou Diarra (Burkina Faso) participa de “Nabo Daheera” e é coautor de outras duas canções; o poeta Nelson Maca declama a visceral “Diga aos vermes que fico” sobre beat do DJ Nato PK feito a partir de um som do primeiro disco, outra faixa híbrida e que foi gerada em estúdio; e outra participação fantástica do Roberto Barreto – guitarrista do Baiana System – tocando guitarra baiana na faixa “Mafalala Livre”.

Estamos circulando bem já o disco, muitas rádios e DJs têm tocado e aos poucos as pessoas estão conhecendo esse novo trabalho e direção de minha carreira. Esse ano muitos ótimos discos foram lançados, principalmente agora na reta final do ano, o que – junto com a corrida pela sobrevivência que entramos devido a situação do país e do mundo – faz com que as pessoas não tenham tempo de ouvir tudo que tem sido lançado.

Os retornos têm chegado cada vez mais e com mais potência, desde blogs da Nigéria a mídia independente e especializada gerando resenhas incríveis. Vamos seguir firme na divulgação e na tour de lançamento previstos pra esse fim de ano e pra 2018, com lançamento do primeiro clipe previsto já pro início do ano. Que os caminhos estejam abertos, os bons ventos soprem a nosso favor e o som possa se espalhar!!