O Festival de Inverno, que aconteceu no último final de semana na Marina da Glória (Rio de Janeiro) se dividiu em três módulos. Na sexta, foi a noite do hip hop, o sábado foi dedicado ao rock Brasil e o domingo foi o dia do sertanejo.

Com dois dias de atraso o dia do rock foi celebrado lembrando os 35 anos do estouro do BRock dos anos 80. Mas essa celebração merecia uma festa, digamos, mais bem organizada. O local já tem um difícil acesso (principalmente à noite) que não foi facilitado em função do evento. Quem ficou na pista comum não viu quase nada. Além de longe, a torre de som tapava toda a visão do palco de quem estava no meio. Longos intervalos entre um show – a última atração, Plebe Rude, entrou no palco já passava das três da manhã – fora a cerveja cara (10 reais a lata de uma marca que normalmente custa quatro reais a menos) e comida idem.

A escalação trouxe dois representantes do Rio que estouraram naquele 1982: Blitz e o ex-Barão Vermelho Frejat; e outros dois vindos de outros estados: Humberto Gessinger da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii e a Plebe Rude, de Brasília, que estranhamente foi escolhida para a função de headliner, sendo das quatro atrações a que talvez tenha menos sucesso comercial.

Blitz

A Blitz subiu no palco pontualmente às dez da noite acompanhada do AfroReggae. Hit ‘Weekend’ abriu a apresentação da banda de Evandro Mesquita. O repertório, além dos clássicos obrigatórios como ‘A Dois Passos do Paraíso’, ‘Mais Uma de Amor’ e ‘Bete Frígida’, também trouxe vários covers de contemporâneos (‘Óculos’, dos Paralamas do Sucesso, ‘Perdidos na Selva’, da Gangue 90) e reverenciou gerações anteriores como Raul Seixas (numa versão de ‘Aluga-se’ muito parecida com a dos Titãs) e Moreira Da Silva em ‘O Rei do Gatilho’, com uma roupagem puxada para o dub. Mas houve também espaço para novidades do último disco “Aventuras II”. Poucas, é bem verdade. Teve ‘Nu na Ilha’, parceria com David Moraes, gravada com os Paralamas, e ‘Martelinho de Ouro’ (mais inspirada), concebida junto com Seu Jorge.

Frejat, atração seguinte, subiu ao palco para a execução de ‘Baile Quente’, na qual divide a autoria. ‘Você Não Soube Me Amar’ encerrou a apresentação, que poderia ter trocado alguns covers por lados b da própria Blitz. O que não faltam são boas composições dos três discos clássicos que não fizeram muito sucesso. Dessas, apenas ‘Vítima do Amor’, do primeiro disco, deu as caras.

A impressão que fica do show da atual formação Blitz é que se trata de um projeto de Evandro para evitar o ostracismo (fica bem evidente que ele é o manda-chuva). Sem o baixista original Antonio Pedro e sem nenhuma das duas backing vocals originais (a dupla Fernanda Abreu e Márcia Bulcão) muito do brilho se perde. Não que a baixista Cláudia Niemeyer e as backing vocals Andréa Coutinho e Nicole Cyrne não cumpram bem suas funções. Pelo contrário. As cantoras de apoio são melhores do que Fernandinha e Márcia, que na época eram até meio desafinadas. Mas a organicidade essencial para o bom andamento de uma banda de rock não é sentida.

Cotação: Regular

Frejat

Ao contrário de seus ex-companheiros de Barão Vermelho, que realizaram um show com caráter de grande evento para marcar o início da nova fase, Roberto Frejat parece estar pretendendo voltar aos poucos. Primeiro um show com voz e violão no Teatro Bradesco quase que na surdina (saiba como foi aqui), e agora uma participação coadjuvante em um festival de música apenas com nomes nacionais. Dessa vez, Frejat se apresentou com uma banda completa e animou a pista da Marina da Glória que se encontrava bem mais cheia.

O show abriu com um clássico do Barão, ‘Maior Abandonado’. O repertório mesclou (muitos) covers de diversos artistas como Mutantes (‘Minha Menina’), Tim Maia (‘Não Quero Dinheiro’, ‘Você’), Roberto Carlos (‘Não Vou Ficar’, ‘Quando’ – que fora gravada pelo Barão no disco tributo “Rei”), Raul Seixas (‘Como Vovó Já Dizia’) e Rita Lee (‘Agora Só Falta Você’). Os principais sucessos da carreira solo ‘Túnel de Tempo’, ‘Amor Pra Recomeçar’ e ‘Segredos’ estavam lá, junto com outros sucessos do Barão na fase em que já havia se consolidado como líder da banda (‘Puro êxtase’, ‘Por Você’) e as que escreveu em parceria com Cazuza como ‘Malandragem’, famosa na versão de Cássia Eller, ‘Bete Balanço’, ‘Por que que a Gente é Assim’ e ‘Pro Dia Nascer Feliz’, que encerrou o show.

Assim como no Teatro Bradesco mês passado, Frejat mostrou que há vida após o Barão, mas que a ex-banda ainda fornece boa parte do combustível para seu repertório. A resposta mais animada da plateia na noite suscitou uma questão: não seria o caso de terem o colocado para fechar a noite? De fato, depois do show, houve uma certa diminuição da lotação.

Cotação: Bom

Humberto Gessinger

O engenheiro do Hawaii Humberto Gessinger, como já era esperado, subiu ao palco apresentando o legado de sua banda, que teve grande sucesso nos anos 80 e início dos 90, era amada por muitos e execrada na mesma proporção por outros. O mote, como na atual turnê, era os trinta anos do álbum “A Revolta dos Dândis”, executado na íntegra. Gessiger forma um trio (mesma dinâmica original dos Engenheiros) com Nando Peters na guitarra e Rafa Bisogno na bateria. “A Revolta” contém hits como a faixa-título, que abriu o show, ‘Terra de Gigantes’, ‘Infinita Highway’ e ‘Refrão de Bolero’ (essa contou com a inserção de um trecho de ‘Piano Bar’).

Depois Gessinger alternou sucessos – ‘Eu Que Não Amo Você’,‘Somos Quem Podemos Ser’ (em que toca acordeom) e ‘Alívio Imediato’ – com músicas da fase que tinha Gessinger como único remanescente da formação original (‘Dom Quixote’, do álbum “Dançando no Campo Minado”, de 2003; ‘3X4’, de “Tchau Radar!”). E também houve espaço para a fase solo com ‘Olhos Abertos’, parceria com Capital Inicial. No fim houve uma junção de ‘Exército de um Homem Só’ com ‘Era Um Garoto Que Como Eu Amava Os Beatles e os Rolling Stones’, ambas do disco “O Papa é Pop” de 1990.

Por mais que sua carreira solo esteja bem sucedida, Humberto Gessinger sabe que é impossível se desvencilhar da marca Engenheiros do Hawaii, embora não a use há quase dez anos. Dar o que os fãs querem ouvir é louvável, mas falta um pouco de coragem em impor mais composições novas ao repertório. Dessa forma, o ciclo vicioso em torno do passado se perpetua.

Cotação: Bom

Plebe Rude

Já passava das três da manhã quando a Plebe Rude iniciou seu show para uma plateia minguada. Apenas um punhado de fãs na pista premium que realmente estavam ali para vê-los ficaram até o fim. A pista comum já se encontrava praticamente vazia. Ainda assim, Philippe Seabra, André X, Clemente Nascimento e Marcelo Capucci fizeram o show eficiente de sempre. Na condição de headliners puderam usar todos os recursos de som, iluminação e telões, mas não escaparam de problemas técnicos, sobretudo com os microfones e com a guitarra de Philippe.

A Plebe é uma das bandas oriundas da chamada turma da colina de Brasília e detonaram seu punk rock com toda a energia. Os clássicos ‘Brasília’ ‘Censura’, ‘Ambição’‘Johnny Vai à Guerra’, ‘Proteção’ e a derradeira ‘Até Quando Esperar’ agitaram os resistentes que ficaram no frio até quase cinco da manhã. Mas também hove espaço para material recente como ‘Anos de Luta’ do último álbum “Nação Daltônica”, lançado em 2014. Podia ter sido um show ainda melhor se a banda não tivesse sido prejudicada por um horário tão ingrato e problemas técnicos.

Cotação: Bom

No balanço geral, o Festival de Inverno no seu dia do rock contou com boas apresentações, mas se houvesse uma estrutura melhor e um horário mais adequado, a experiência teria sido muito mais satisfatória.