Paul Weller é um prodígio. Aos 59 anos, é ex-integrante de duas bandas essenciais do pop inglês: o The Jam e o Style Council. O detalhe que a primeira – uma banda que unia o punk em voga com o espírito mod de grupos como o The Who – quando chegou ao fim, Weller tinha apenas 22 anos. A atual fase do artista se mostra bastante profícua. Primeiro se encarregou da trilha sonora do filme Jawbone. Agora lança “A Kind Revolution” (Solid/Parlophone/Warner, 2017), mostrando que o Modfather está em plena forma.

A faixa que abre o disco, a vintage ‘Woo Sé Mama’, é um rockão com forte acento soul. Um quê de Style Council, umas pitadas de Jam, e uma bem leve semelhança com ‘Get it On do T. Rex’ (nada como ‘Cigarrettes & Alcohol’ do Oasis, mas mas traz sim uma semelhança). ‘Nova’ poderia muito bem ter saído de uma parceria com David Bowie. ‘Long Long Road’, a terceira faixa, é uma canção pop tradicional que se apóia em um arranjo inspirado, com ecos sessentistas.

A sofisticada faixa seguinte, ‘She Moves In Flares’, conta com a participação de Robert Wyatt, guitarrista do Soft Machine, que abrilhanta a gravação. É mais outra que acena para a fase Style Council. ‘The Cranes Are Back’ tem uma pegada soul que conquista de assalto logo na primeira audição. Weller chega a soar quase negro em seus versos. Tanto ‘Hopper’ quanto ‘New York’ trazem consigo uma poesia minimalista, já ‘One Tear’, que traz um dueto vocal com Boy George, se alonga em uma Jam, mas o resultado fica longe do enfadonho ou da virtuose vazia. A faixa que fecha o álbum ‘Impossible Idea’ é outra demonstração do poder de fogo de Weller em alinhavar belas melodias.

 

O que fica claro em A Kind of Revolution é a determinação do ex-Jam em não permanecer na zona de conforto. Apesar do belíssimo legado, ele opta por fugir da autorrefência constante (uma armadilha irresistível para artistas veteranos consagrados). Olhando para o passado sim, mas sem se esquecer do que o circunda no presente momento.

O título (traduzindo para o português uma gentil revolução) de modo algum indica que Weller está pegando leve. Pelo contrário, o álbum se aproxima mais do heavy soul de “Wild Wood”, lançado em 1993, do que do puxado para o lisérgico Saturn Patern de 2015. A versão deluxe traz todas as faixas em seus modos instrumentais. Ali é possível apreciar ainda mais os arranjos. Por fim, “A Kind Revolution” mostra que Paul Weller ainda pode compartilhar muito de sua magistralidade. Assim como Bowie, ele soube se reinventar e chegar à fase madura com relevância. Que venham muitos outros.