Em 1964 uma multidão de bandas britânicas tomou as paradas de sucesso americanas, fenômeno que depois ficaria conhecido como Invasão Britânica. Naquele ano os Rolling Stones lançavam seu primeiro álbum, e os Beatles descabelavam a garotada com “A Hard Day´s Night”. Enquanto The Who, Small Faces, Them e The Animals competiam com Beatles e Stones pelos postos mais altos das paradas, The Kinks parecia apenas mais uma banda com nome estranho, muito entusiasmo e pouco talento.

Após dois singles fracassados, os Kinks precisariam fazer algo realmente espetacular para que sua carreira não se encerrasse prematuramente. E fizeram: “You Really Got Me”. A canção considerada precursora do hard rock, do punk e do heavy metal. Inspirou “I Can See for Miles” do Who, além de toda uma geração de bandas de garagem, e foi regravada por Van Halen e Metallica. Jimmy Page, futuro guitarrista do Led Zeppelin, participou das gravações como músico de estúdio, embora até hoje não se tenha certeza de que suas contribuições tenham sido preservadas na versão final da música.

“You Really Got Me” foi composta por Ray Davies, vocalista e principal compositor da banda. Dave Davies, irmão de Ray e guitarrista dos Kinks, também teve um papel importante na criação da música. Dave danificou um amplificador com um estilete, para que o som de sua guitarra saísse distorcido e barulhento. Na época, as bandas de rock ainda não usavam pedais para distorcer o som de seus instrumentos.

A canção, com uma sonoridade pesada e agressiva para os padrões da época, é a melhor do primeiro disco da banda. Fez tanto sucesso que o produtor da banda, Shel Tamy, pressionou os músicos durante as gravações dos três álbuns seguintes para que continuassem gravando canções semelhantes.

Em meio a uma série de turnês, a banda gravou Kinda Kinks às pressas, em 1965. Em seguida viria The Kink Kontroversy, que já mostrava certa evolução musical. “Till the End of the Day” e “Where Have All the Good Times Gone” tornaram-se clássicas e foram regravadas, respectivamente, pelas bandas Big Star e Supergrass.

A melhor fase do grupo começaria com o disco “Face to Face”, de 1966. Canções como “Dandy” e “Sunny Afternoon” expõe de maneira crítica e divertida personagens típicos da sociedade inglesa. Ray Davies criava divertidas sátiras sociais em forma de música pop. Musicalmente os Kinks estavam deixando de lado a simplicidade sonora típica das bandas da Invasão Britânica, ainda presente em algumas canções de “Face to Face”, e conquistando um maior refinamento melódico. As composições dos Kinks também começavam a mostrar uma influencia cada vez maior do estilo Music Hall – uma mistura de música e teatro cômico, muito popular na Inglaterra do fim do século 19.

A partir de 1967, Ray Davies passa a produzir todas as gravações de seu grupo. Os discos “Something Else”, de 1967, e “Village Green Preservation Society”, de 1968, mostram como o controle do compositor deu à banda uma personalidade própria, muito diferente do rock psicodélico e do hard rock que dominavam as paradas de sucesso. Melodias sofisticadas e climas nostálgicos marcam canções como “Waterloo Sunset”, “Autumn Almanac” e “Wonderboy”. Guitarras distorcidas aparecem cada vez menos nas músicas gravadas pela banda nos fins dos anos 1960, substituídas por instrumentos acústicos e orquestrações.

O disco “Arthur”, de 1969, inicia um período de declínio criativo da banda, que ainda gravaria ótimas canções, como “Lola”, lançaria discos de qualidade irregular e continuaria fazendo shows até 1996, quando os irmãos Ray e Dave Davies anunciaram o fim dos Kinks.

A Universal lançará, a partir deste mês, os principais discos dos Kinks em CDs duplos com faixas bonus. Desde o primeiro, “Kinks”, de 1964, até “Muswell Hillbillies”, de 1971. O clássico “Village Green Preservation Society” ficará de fora porque já foi relançado há alguns anos em edição tripla. Não há previsão de lançamento desses discos no Brasil, e se você não puder comprar as edições importadas, aqui vai uma lista de canções da banda que valem a pena ser conferidas:

“You Really Got Me” – 1964

“Stop Your Sobbing” – 1964

“All Day and All of the Night” – 1964

“See My Friends” – 1965 – O primeiro rock ingles influenciado pela música indiana, lançado quatro meses antes de “Norwegan Wood” dos Beatles.

“A Well Respected Man” – 1965 – A primeira crônica sobre o modo de vida inglês escrita por Ray Davies.

“Till the End of the Day” – 1965

“Where Have All the Good Times Gone” – 1965

“Dedicated Follower of Fashion” – 1966

“Dandy” – 1966

“Sunny Afternoon” – 1966

“Dead End Street” – 1966 – Antes mesmo que a música fosse lançada, um filme promocional foi produzido utilizando os membros da banda como atores. Segundo Ray Davies, os produtores da BBC consideraram o resultado mórbido e de mau gosto.

“David Watts” – 1967

“Death of a Clown” – 1967

“Waterloo Sunset” – 1967 – Considerada uma das mais belas canções da música pop britânica. Pete Townshend, guitarrista do The Who, declarou que a canção era “divina”. Damon Albarn, vocalista das bandas Blur e Gorillaz, considera esta a melhor canção de todos os tempos.

Autumn Almanac” – 1967

“Village Green Preservation Society” – 1968 – entre nostálgico e irônico, Ray Davies canta: “God save little shops, china cups and virginity”…

“Do You Remember Walter” – 1968

“Picture Book” – 1968

“Big Sky” – 1968

“Starstruck” – 1968

“Days” – 1968

“Wonderboy” – 1968

“Victoria” – 1969

“Lola” – 1970

“Apeman” – 1970