Nos dias 11 e 12 de novembro, a legião carioca de fãs do rock progressivo pôde lavar a alma. A lendária banda italiana Locanda Delle Fate tocou no Brasil pela primeira vez. E, infelizmente, pela última. Essa turnê uniu as comemorações dos 40 anos do clássico álbum “Forse le lucciole non si amano più” à despedida dos palcos. Como sabem os aficionados por progressivo, esse é um dos discos mais celebrados do gênero e figura entre os pilares da escola progressiva italiana, uma das mais importantes do mundo. Ironicamente, o disco foi lançado de forma meio desacreditada. Em 1977, a onda de rock progressivo made in Italy parecia estar chegando ao fim. Era grande número de grupos do gênero por lá. Isso acabou por implodir vários outros. Em meio à supremacia de bandas como Le Orme e o Premiata Forneria Marconi, o Locanda cavou seu espaço e transformou seu álbum de estreia em um cult.

O clima no segundo show em terras brasileiras, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca (RJ), era de despedida sim, mas, sobretudo, de celebração. Era visível a satisfação estampada no rosto dos integrantes. E dos presentes também. Não era raro ver fãs portando cópias em vinil de “Forse” (para tentar aquele autógrafo). O público progressivo é tão apaixonado e devoto quanto o de metal. Quando adentraram o palco e executaram a instrumental ‘A volte un istante di quiete’ (que também abre o álbum), era como o início de uma missa.

Sucederam-se, na mesma ordem do disco, ‘Forse le lucciole non si amano più’, ‘Profumo di colla bianca’, ‘Cercando un nuovo confine’, ‘Sogno di Estunno’ e ‘Non chiudere a chiave le stelle’. O baixista Luciano Borero, alternando-se entre o italiano e um inglês quebrado, não se cansava salientar o quão especial era estar tocando aqui. O vocalista Leonardo Sasso deixou claro que foram as duas apresentações brasileiras foram as mais emocionantes de sua carreira. E foi aplaudido efusivamente após a declaração.

Em seguida vieram as faixas mais recentes. ‘Mediterraneo’, lançada no ano passado como videoclipe, e a mais nova, ‘Lettera di un Viaggiatore’, antes de retornar a “Forse” com ‘Cercando un Nuovo Confine’. ‘Crescendo’, ‘Sequenza Circolare’ e ‘La Giostra’ foram as músicas do último álbum, “Missing Fireflies”, de 2012, trazidas para o repertório. A parte regular do show foi encerrada com ‘Homo Homini Lupus’. O bis já era esperado, mas foi calorosamente recebido. E foi com a última música de “Forse”, Vendesi saggezza’, que a banda encerrou a apresentação. Mas não sem antes presentear a plateia com um bônus: um bis da faixa-título do álbum festejado na turnê. Parecia que eles não queriam deixar o palco. Quem estava nas primeiras fileiras ainda conseguiu apertos de mão, palhetas e baquetas de recordação.

No palco, o que se viu foi uma banda impecável, com destaque para o tenor Leonardo (único que esteve em todas as formações do grupo) e a dupla de tecladistas Maurizio Muha (na função desde 2010, responsável pelos solos) e Oscar Mazzoglio (que executa os efeitos e sons de outros instrumentos como flauta). O show foi a despedida internacional. O último concerto será em Asti, cidade onde a banda se formou. Os fãs lamentam o fim das atividades do Locanda delle Fate. Certamente a intenção é parar no auge. É compreensível e louvável. Mas pelo que se viu nas duas apresentações, teriam fôlego para pelo menos mais duas turnês.