O Eu lírico no samba. Qual seria? O cronista da cidade do Rio de Janeiro, ou aquele que cotidianiza o carnaval na sua faceta do malandro – personagem. Bezerra cantou os malandros do morro, Melodia eternizou o seu São Carlos numa poética afilada na palavra escondida de saudade. A canção e sua letra estaria assim como um bom cronista para a página do jornal? Ou como uma boa coletânea sobre as montanhas de Minas? Ou como uma especial radiografia de Minas num dos álbuns antológicos de Milton Nascimento.

Mas a alquimia do teor de uma canção pode se descolar de um local, de lugares, pode se tornar tão pessoal e singular que só queira falar na primeira pessoa do singular no lugar do coração. Como a clássica postura altiva da letra do Paulo Leminski na canção, Dor Elegante, (sofrer já não é tão marginal). Pois as letras de Oscar da Penha (o Batatinha) sambista Baiano que perfilou na ponta do gume, uma poética afiada de cortar, não pulsos, nem de dar impulsos, mas dá a pulsão ou impulsão numa sucessão de imagens lindíssimas sobre o estado de (in)conter-se no sofrimento.

O cantor e produtor Celso Sim reuniu 11 faixas no álbum O amor entrou como um raio (Circus/2017) que perpassou a trajetória do sambista e reuniu uma banda afiada para recriar em arranjos, não saudosistas, uma poética sonora de violões, cavaquinhos e bandolins -Webster Santos, junto com uma sofisticada camada de cordas que Filipe Massumi comandou com extremo bom gosto e adequação à linha poética das letras, somada à linda marcação rítmica da percussão de Maurício Badé.

A grande sacada da produção do álbum foi não fazer algo tão reverenciado à época. Deixar solto o espírito fluido da própria verve do poeta desinibindo a dor de cotovelo ou o sofrer como algo que possa causar perigo à autoimagem do trovador da sofrência. Celso pontua por sinal cada sílaba que Batatinha cadencia no seu pendor (in)dolor para o altivo existir a dor.