Na música “Touro“, que efetivamente abre “Coração”, novo trabalho de Johnny Hooker, o cantor pernambucano já declara começar de novo, podem tentar, quebrar, desnortear, mas meu amor nunca me roubam….  É na firmeza desses versos que entendemos que seu segundo trabalho o sedimenta como uma das vozes mais firmes e interessantes da chamada nova música popular brasileira.

Depois do impacto gerado pelo CD de estreia Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!” (2015), Hooker segue fazendo de sua passionalidade um motor sonoro dos mais abrangentes, tanto que passeia por diferentes estilos, do rock ao frevo, mas soa homogêneo justamente pela personalidade que incide sobre seu conjunto.

Dos destaques imprescindíveis para compreender todo esse entusiasmo, vale ressaltar a já citada “Touro“, que não somente evoca uma letra de auto-afirmação contundente como possui uma sonoridade de impacto. “Página Virada” é o Johnny Hooker senso Johnny Hooker, ou seja, cantando como se arrastasse as costas na parede, aos prantos. E te leva junto.

Esse mesmo Johnny Hooker ensimesmado, está na energia da deliciosa “Caetano Veloso”, candidata a hit nas “Antenas 1″ da vida. Com “Coração de Manteiga de Garrafa” um misto de samba reggae com axé, num apelo certeiro à sedução desses gêneros para uma música funcionar. Será dos pontos altos num show ao vivo, com certeza.

Muito interessante é sua homenagem ao ídolo David Bowie com “Poeira das Estrelas”, em que brada me leve com você pras estrelas, me jogue contra as ondas do mar, me segue com as suas certezas, o novo deus nascerá”, sintetizando harmonicamente a pungente afeição pelo cantor britânico, e pela sua música. O resultado é reverente, inclusive musicalmente. Mas o grande canção do álbum, e que tem puxado o trabalho, é “Flutua”, parceria de Hooker com Liniker. Dois brilhantes cantores da nova geração se unindo num soul feérico que se desmancha numa declaração de amor que agrega afeto a luta pela dignidade da comunidade LGBTQ. Para além disso, é uma música lindíssima e que se universaliza pela entrega (e diversidade!) vocal desse encontro.

“Coração” é um disco complementar à obra recém iniciada do cantor, e que diz muito sobre sua inquietude artística. Mas sempre a flor da pele diante do que sente e porventura canta.