Que os ouvidos estejam sempre abertos para o peso e a ofensividade do rock! Se um extraterrestre chegar ao planeta e perguntar o que é o Rock n’ roll, você pode mandá-lo ouvir o AC/DC. Uma guitarreira seca e decidida. O rock é o estilo farrista, direto ao ponto, de tocar, como o de Angus Young.

Se o forasteiro quiser mais, diga para ele conferir um tal de Bob Dylan, um moleque que fugiu de casa para fazer música indomada. O rock é a luta de Dylan pela sua criatividade desobediente. O rock é Little Richard pregando melodias rasgadas como um pastor selvagem ao piano. É o som de aço da guitarra de Toni Iommi, inaugurando a linhagem mais sombria do rock. Na Birminghan cinzenta e industrial, onde o movimento hippie do final dos anos 60 não conseguia fazer chegar sua luz de paz e amor, o sol é de metal. Ouça Black Sabbath.

O rock é Chuck Berry e seu talento para coroar a guitarra como soberana. A protagonista do rock.  O rock é a guitarra que se distorceu num golpe de sorte e tornou-se a identidade de uma ira erótica. O rock é muita guitarra. Um instrumento com um corpo libidinoso e reluzente, incendiado pela liberdade voluptuosa da cigania de Jimmy Hendrix. O rock é o prodígio e a austeridade de Eric Clapton. O rock é uma legião de heróis da guitarra, lascivos e econômicos, excessivos e matemáticos. Ouça Steve Ray Vaughan, David Gilmour, Brian May, Slash, Duane Allman, Tom Morello, The Edge e Jack White.

O rock é energia elétrica e carnal em forma de volume. É a fúria adolescente em frequências amplificadas. É a intensidade de um ritmo indisciplinado que se move na velocidade da queda de um velho edifício. De um mausoléu que tomba carcomido pelo conservadorismo de costumes que limita o desejo vivo. O rock é um jovem inquieto, quase angustiado, que foi curtir uma festa lisérgica, um banquete de vigor, em que gigantes fazem barulho enquanto caminham sobre a Terra. O rock é muito John Boham, Jimmy Page, John Paul Jones e Robert Plant, juntos em transe, concebendo o rock pesado, com seus riffs perfeitos e seu blues impetuoso e provocante. O rock é um dia de celebração. Quatro gigantes reunidos numa só banda. Ouça Led Zeppelin.

O rock é o desejo de ir além dos limites, com potência e entusiasmo. É um porre, um transbordamento. Um parto. O Rock deu à luz a um filho, ainda mais rebelde do que ele mesmo. O punk, com sua crueza e atitude, espinafra a cerimônia e reacionarismo que por vezes ameaça afastar o rock de suas raízes verdadeiramente subversivas. O filho indócil do rock faz jus ao avô, o blues, que nasceu insubmisso como resistência poética ao trabalho forçado e produziu dádiva e encanto como resposta ao holocausto da escravização negra. Ouça Muddy Waters, Gary Clark Jr, Fugazi, MC5, porra!

Dos negros, além do blues, veio o jazz e o rhythm & blues. Dos brancos, o rock herdou o country e o folk. Da mistura orgânica entre eles, nasceu este estilo de música desapegado, fortemente associado à disposição da juventude, à aspiração não domesticada de uma geração em busca de formas de expressão vital.

O rock nasceu para falar alto em estardalhaço o que os velhos não sabem ouvir com seus ouvidos ultrapassados. Na sua origem, o rock era temido pela igreja, pela família, pelo governo. Todos tinham medo do que poderia dizer aquela voz, ansiosa por se libertar das amarras que formatavam o comportamento das famílias nos anos 50. Com o tempo, o rock tornou-se um grande negócio. Um moleque que descobre através da MTV uma banda fodaça. O rock hoje enche estádios. Mas, e a música? O rock dá o levante e grita: ouça! Ouça The Who e Queens of the Stone Age. Metallica, Rush e Radiohead. Pantera e U2. Motörhead e Rolling Stones. E amanhã? Ouça Far From Alaska, Macaco Bong e Ego Kill Talent. E depois, ouça Soundgarden e The Clash. Slayer, Pearl Jam e Aerosmith. System of a Down e Rage Against the Machine.