O The Who se apresenta pela primeira vez no Brasil em setembro. Depois de décadas de espera, a banda inglesa (hoje uma dupla) realiza três shows no país: São Paulo Trip, dia 21 na capital paulista, em Porto Alegre no dia 26, e será uma das atrações mais aguardadas do Rock In Rio. O show acontece no dia 23, divideindo a noite com o Guns N’ Roses. Lá se vão 52 anos desde o lançamento do primeiro álbum da banda símbolo do movimento mod. Aproveitando a vinda da banda daqui a pouco mais de um mês, fizemos aqui uma análise do trabalho estúdio (se entrassem as compilações e ao vivo o texto levaria uma eternidade para ser lido). Acompanhe The Who disco a disco.

The Who Sings My Generation (1965)

Assim como no caso dos Beatles e dos Rolling Stones, a estreia do Who foi matadora. O primeiro disco da banda vem imbuído daquela garra e sede de sucesso extremamente benéficas para qualquer banda iniciante. Um som pesado com uma pegada soul irresistível e os vocais de Roger Daltrey que colocam suingue e agressividade em perfeita sintonia. E a guitarra de Pete Townshend já mostrando um pouco do que veríamos nos próximos trabalhos.

Desse disco saíram os clássicos absolutos ‘My Generation’ (com a famosa gaguejada acidental de Daltrey que acabou ficando e dando uma graça à música) e ‘The Kids Are Alrigth’. Também merecem destaque as irresistíveis melodias de ‘The Good’s Gone’, ‘La-La-La-Lies’, ‘Legal Matter’ e as trovoadas proporcionadas pelo baixo de John Entwistle ‘The Ox’ (que acabou virando o apelido do baixista) amparadas pela bateria ensandecida de Keith Moon fechando o álbum. Sem dúvida um dos melhores discos de estreia da História.

Cotação: Épico

A Quick One (1966)

Aqui já temos o The Who em uma guinada mais ambiciosa artisticamente. Isso pode ser visto na capa assinada por Alan Aldridge, que já acena para a psicodelia. Nesse disco, nota-se uma diminuição no acento R&B ouvido no anterior. Enquanto “My Generation” era mais um agrupamento de singles, “A Quick One” já se reveste do conceito de álbum, com as faixas em um claro sentido de unidade. ´o álbum menos dominado por composições de Pete Townshend, já que o acordado com a gravadora era que cada um escrevesse duas faixas (Roger Daltrey escreveu apenas uma, ‘See My Way’).

Os destaques do álbum são ‘Boris The Spider’ e a faixa título, que fecha o disco. A primeira surgiu depois de John Entwhistle sair para beber com Bill Wyman, baixista dos Stones. A segunda, de autoria de Townshend, já acena para as óperas-rock que se viriam a seguir. A opereta sobre um caminhoneiro que ao retornar se depara com traição da mulher (a tal “rapidinha” na tradução do título para o português) foi chamada pelo guitarrista na apresentação que rendeu o ao vivo “Live at Leeds” como “os pais de Tommy”. Outro bom momento de “A Quick One” é a orquestra endiabrada de ‘Cobwebs and Strange’ , composição de Keith Moon. O disco foi lançado nos EUA como “Happy Jack”. A faixa título da versão americana vinha no lugar do cover ‘Heat Wave’ e saiu no Reino Unido como single.

Cotação: Ótimo

The Who Sell Out (1967)

Em 1967 os Beatles lançavam “Sgt Pepper’s”, o Pink Floyd estreava com o excelente “The Piper at the Gates o Dawn”, “The Doors” lançava seu seminal disco de estreia. E The Who inaugurava sua melhor fase criativa. “The Who Sell Out” é um disco conceitual que demanda um certo tempo para se digerir e entender, apesar de as melodias terem seu teor pop. De cunho crítico, satirizava o consumismo com propagandas absurdas, e ainda trazia inserção de vinhetas radiofônicas no intervalo das músicas. “Sell Out” é o passo dado pela banda rumo à psicodelia, embora a identidade sonora estabelecida pela banda no primeiro álbum esteja ali conservada. Isso é sentido logo na primeira música, a lisérgica ‘Armenia City in the Sky’.

É o melhor jeito como o The Who soou até então. Aqui, Pete Townshend já se consolida como principal compositor e líder da banda. As brigas internas eram uma constante, mas no estúdio o entrosamento dos quatro era a perfeição. ‘I Can See For Miles’ é o melhor exemplo.

Cotação: Épico

Tommy (1969)

A ideia de conceber uma ópera rock surgiu de uma brincadeira. Pete Townshend colocou uma fita com a canção paródia ‘Gratis Armatis’ para o empresário da banda, Kit Lambert. Trata-se de 10 minutos de vozes repetindo a expressão título. “É ópera rock”, disse Townshend e os dois caíram na gargalhada. De repente Lambert parou de rir e, pensativo, disse: “é uma ideia”. Depois de ensaiar o conceito com ‘A Quick One’ e a faixa ‘Rael’, do “The Who Sell Out”, Townsed resolveu criar sua ópera rock.

A história do garoto que cresce cego surdo e mudo após um trauma na tenra infância e desenvolve habilidades sem igual no pinball, se transformando em ídolo, foi narrada em um vinil duplo (em CD é apenas um) por rocks vigorosos. Os pontos altos são ‘Eyesight to the Blind’, o petardo ‘Pinball Wizard’ e a poderosa suíte ‘We’re Not Gonna Take Me/‘See Me, Feel Me’ que fecha o álbum. “Tommy” se utiliza de metáforas para abordar temas como abuso na infância, religião, charlatanismo e culto às celebridades. É uma obra quase biográfica de Pete Townshend.

Seis anos depois a ópera rock ganhou os cinemas pelas mãos do diretor inglês Ken Russell, que conseguiu traduzir para a telona a aura lisérgica da criação do The Who. No elenco, interpretando as músicas do álbum estavam Eric Clapton, Tina Turner (uma força da natureza na interpretação de Acid Queen) e Elton John, na icônica performance de Pinball Wizard. Tommy também foi adaptado para a Broadway e ganhou um show especial na comemoração dos 25 anos da banda, em 1989.

Cotação: Épico

Who’s Next (1971)

O que era para ser um ambicioso projeto multimídia de Pete Townsed acabou rendendo o que é considerado o melhor disco da banda. A gênese de Who’s Next está em Lifehouse, concebido por Townshend como um filme sci-fi com teor espiritual, com trilha do The Who, que apareceria em alguns momentos tocando ao vivo e renderia um álbum duplo. Dos escombros de Lifehouse saíram composições de força incontestável. Até os B-sides e sobras de estúdio merecem atenção, tanto que foram lançadas nas edições especiais que saíram em CD.

Aqui temos o apogeu do The Who. Letras contundentes sobre a desilusão com as expectativas de uma mudança significativa prometida pela geração dos anos 60 em ‘Won’t Get Fooled Again’, espiritualismo em ‘Baba O’Riley’, inspirada pelo guru indiano Meher Baba, e o desabafo autorreflexivo de Townshend em ‘Behind Blue Eye’. Além disso temos Roger Daltrey cantando como nunca; um inspirado John Entwitsle, cuja única contribuição como compositor, ‘My Wife’, é um dos melhores momentos do álbum, e com linhas de baixo marcantes em todas as faixas, e o endiabrado Keith Moon azeitando a engrenagem dosando anarquia e precisão com suas baquetas. Um inovador uso de sintetizadores conferiu ainda mais brilho para ‘Baba O’ Riley’, que abre o disco, e para ‘Won’t Get Fooled Again’. As músicas foram compostas e gravadas por Townshed, mas os outros três contribuíram com o acabamento perfeito.

Para a frustração de Townshend, Lifehouse não aconteceu como ele planejara e o The Who só chegou aos cinemas com a adaptação de Tommy. No entanto, o rock ganhou um dos melhores discos de sua História.

Cotação: Épico

Quadrophenia (1973)

Digamos que o disco duplo, o sexto da banda, seja uma continuação espiritual de Tommy. Se a ópera rock de 1969 falava sobre crescimento, essa aqui era a respeito das angústias da vida de um jovem adulto. E tinha a era mod, tendência da qual emergiu o The Who, como cenário. “Quadrophenia” mostrava a trajetória do jovem Jimmy, um garoto mod da classe operária. O disco abre de forma pujante com ‘The Real Me’. O ponto alto é a inflamada ‘5.15’, com Roger Daltrey em performance vocal extrema. Pete Townshend delineou quatro músicas ilustrando a personalidade de Jimmy, cada uma sob medida para um integrante. ‘Bell Boy’ para Keith Moon, ‘Is It Me’ para John Entwistle, ‘Helpless Dancer’ para Roger Daltrey e ‘Love Reign O’er Me’ (outro grande momento do disco) para ele próprio. Musicalmente, era ainda mais ambicioso do que a ópera que o precedia. “Quadrophenia”, assim como Tommy, ganhou uma versão cinematográfica, em 1979, dirigida por Frank Roddam.

Cotação: Ótimo

The Who By Numbers (1975)

O grande problema do sétimo trabalho do The Who foi ter sido precedido pela fase mais brilhante da banda. Assim sendo, o disco ficou estigmatizado como o início do declínio. Mas “By Numbers” está longe de ser um disco ruim. Havia problemas internos, Pete Townshend aos 30 anos começava a se achar velho para tocar rock. Segundo o guitarrista, Roger Daltrey parecia estar com raiva do mundo, Keith Moon estava mais impetuoso do que nunca e John Entwistle precisava juntar forças. O resultado foi um disco que oscila momentos inspirados como a faixa de abertura ‘Slip Kid’ e ‘Squeeze Box’, com outros aquém do potencial da banda. Glyn Johns, que também produziu “Who’s Next” até realiza um bom trabalho. A virtude de “By Numbers” é ser um disco de rock mais despojado, desprovido de grandes pretensões. Vale a pena ser ouvido evitando comparação com os quatro anteriores.

Cotação: Bom

Who Are You (1978)

Começa uma crise interna na banda, que já começava a se desenhar no álbum anterior. O último trabalho com o baterista Keith Moon, cujo estado de saúde já começava a preocupar os colegas. A exaustiva agenda de shows e as desavenças criativas e de temperamento acirravam os nervos. Musicalmente “Who Are You” foi um disco em que Pete Townshend exorcizou os demônios criando as linhas de guitarra mais complexas já compostas por ele. Certamente um influência do rock progressivo. Mas o disco também tem sintonia com a atmosfera punk, outra tendência da época, e pode-se perceber até acenos para a disco. Algumas semanas após o lançamento, Moon veio a falecer. a banda ficou em mais um hiato de três anos sem lançar material. “Who Are You” tem méritos, mas deixa bem evidente que o auge da banda ficou para trás.

Cotação: Bom

Face Dances (1981)

O The Who iniciou uma nova fase, sem o baterista Keith Moon, já na turnê de divulgação de “Who Are You”. Em seu lugar entrou o ex-Small Faces Kenney Jones. Outra novidade foi a adição de um tecladista como músico de apoio, John Rabbit Bundrick. Face Dances foi a estreia em estúdio com a nova formação e o resultado, no geral, foi positivo, apesar de passar longe da genialidade. O disco dividiu a crítica na época, mas é possível enxergar inspiração em alguns momentos, sobretudo no lado A, que traz o hit ‘You Better You Bet’, que abre o álbum, ‘Don’t Let Go the Coat’ e ‘Cache Cache’. São exemplos de que a banda, mesmo desgastada, ainda conservava um poderio pop. A capa estampa uma colagem de retratos dos membros da banda feitos por artistas plásticos ingleses. O conceito foi criado por Peter Blake, criador da capa de “Sgt Pepper’s” dos Beatles.

Cotação: Bom

It’s Hard (1982)

 

O que seria, até segunda ordem, o canto do cisne do The Who se deu de forma melancólica. Um álbum pouco inspirado, de uma banda desestruturada e passando a sensação nítida que estava perto do fim. O que se ouve nas 12 faixas é uma pálida versão do que o The Who fora. Os momentos de alguma inspiração ficam por conta da faixa título e de ‘The Eminence Front’, que acabou sendo o único hit do álbum. ‘Dangerous’ e ‘One at a Time’ foram escritas por John Entwistle originalmente para sua ópera rock fracassada.

Cotação: Regular

Endless Wire (2006)

Depois de It’s Hard, o The Who acabou, mas não se dissolveu. Realizou turnês de despedida, turnês comemorativas de aniversário, e, depois de uma vitoriosa turnê do álbum Quadrophenia em 1996/97, resolveram voltar. Mas disco só em 2006. Endless Wire foi bem recebido pela crítica, e selou a amizade entre Pete Townshend e Roger Daltrey, que nunca se deram bem. A morte de mais um colega, John Entwistle em 2002, mais o processo por pedofilia que Townshend sofreu fez com que a dupla ficasse mais unida. E isso permitiu que perpetuassem o legado por mais alguns anos. O disco é honesto, feito de coração aberto e com melodias marcantes. A obsessão de Townshend por ópera rock culminou nesse álbum. No entanto, as músicas de “Endless Wire” não têm tido espaço nas últimas turnês.

Cotação: Ótimo