Há 40 anos o U2 se formava. Em 25 de setembro de 1976, os então adolescentes Paul Hewson, Dave Evans e Adam Clayton responderam ao anúncio para formação de uma banda colocado por um baterista de 14 anos, Larry Müllen, Jr.,no mural da escola Mount Temple Comprehensive School, em Dublin, Irlanda.

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Com Hewsen nos vocais (que ficaria conhecido como Bono Vox, e posteriormente apenas Bono), Evans na guitarra (que ficaria conhecido como The Edge) e Clayton no baixo, a banda se chamou, a princípio, de Feedback, e contava com Dick Evans, irmão de The Edge, na segunda guitarra.

No ano seguinte, o nome foi mudado para The Hype e, finalmente, em 1978, já como quarteto, adotou o nome com o qual se consagrariam na cena rock mundial, colocando a Irlanda de vez no mapa da música pop. Claro que antes deles já havia Van Morrison, Thin Lizzy, Stiff Little Fingers, mas foi depois do estouro do U2 que os olhos das grandes gravadoras se voltaram para a Irlanda, desencadeando o surgimento de várias bandas e artistas. Aproveitando os 40 de formação da banda, a Revista Ambrosia revisita sua discografia.

Boy (1980)

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O debut da banda é um disco essencialmente influenciado pelo punk e a new wave. O U2 aqui se encontra com uma energia juvenil e um clima bastante descompromissado. Guitarras com forte pegada, melodias bem engendradas e a segura produção de Steve Lillywhite asseguraram a “Boy” um lugar entre os melhores da década. O álbum traz as clássicas ‘I will follow’, ‘Eletric co’.

October (1982)

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Ainda sob as mesmas influências do anterior, o U2 não decepciona no teste do segundo álbum, apesar de não ter a mesma impacto do anterior. Destaque para a bela clássica ‘Gloria’.

War (1983)

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É o Green card do U2. Com este álbum, a banda conquista o mercado norte-americano. É também um disco de transição da fase pós-punk para a fase messiânica. Aqui a face engajada, que passará a ser a marca registrada do grupo, começa a se desenhar. ‘New year’s day’ era uma critica à lei marcial polonesa decretada depois da dissolução do partido solidariedade, que fazia manifestações nas ruas pedindo liberdade de expressão e condições de trabalho decentes, e prisão de seu líder Lech Walensa. Logo após o lançamento do single a lei foi revogada. Além de ‘New year’s day’, outro clássico da banda (senão o maior de todos), é a bela ‘Sunday Bloody Sunday’, que lembra o episódio do domingo sangrento na Irlanda. Ficou marcada por sua inconfundível bateria marcial. “War” rendeu uma turnê pela Europa e Estados Unidos que foi registrada no ótimo ao vivo “Under a blood red sky”.

The Unforgettable Fire (1985)

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Não há mais resquícios de pós-punk. Batizado com o nome da exposição em Chicago para qual o U2 doou o cenário da turnê de 1983, o disco é o inicio da fase messiânica e do fascínio pelas coisas da América, característica que se tornará mais evidente nos próximos dois trabalhos. O álbum abre com a pungente ‘A sort of homecoming’ e traz clássicos como ‘Pride’, ‘Bad’, além da faixa titulo. A belíssima ‘Promenade’ também merece destaque.

The Joshua Tree (1987)

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O multi-premiado álbum é o ponto alto da fase messiânica. Perfeito do inicio ao fim é o mais belo disco do U2. O reconhecimento do público e da critica não foram em vão. Apesar de ter quase todo seu lado A tocado a exaustão nas FMs, é impossível enjoar de canções tão marcantes como ‘Where the streets have no name’, ‘I still haven’t found what I’m looking for’, ‘With or Without You’ e ‘Bullet the Blue Sky’. Porém seu lado B também é de arrasar, com destaque para ‘Running to stand still’, ‘Red hill mining town’ e ‘In God’s Country’.

Rattle And Hum (1988)

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O U2 agora é uma mega-banda. E toda mega-banda precisa de um megaprojeto para se autoafirmar certo? O projeto Rattle and Hum englobava disco e filme. O disco era uma parte canções inéditas e outra parte covers e sucessos da banda ao vivo tirados da turnê “Joshua Tree”. Já o filme dirigido por Phil Joanou cumpre a missão de mostrar uma banda no auge do sucesso em ação. É aqui que o deslumbramento com a América se torna mais exacerbado: parceria com B.B.King (na ótima ‘When Love Comes to Town’), clipes em Vegas, chapéus de caubói, influencias do folk. Mas pode também ser uma viagem da banda às origens do rock indo do gospel (com aversão arrepiante de ‘I Still Haven’t Found What I’m Looking For’ com um coral). A superexposição nessa época foi tanta que fizeram o ultimo show da turnê que se emendou na “Joshua Tree” (a lovetown cujo fim se deu num show iniciado à meia noite do dia 31 dezembro de 89 para 1 de janeiro de 90) em tom de despedida. E muitos fãs realmente temeram pelo fim. Mas era apenas uma retirada estratégica para não desgastar a imagem do grupo. Uma nova fase estava prestes a se iniciar.

Achtung Baby (1991)

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“O U2 vai gravar um disco dance!” Foi o boato que correu em 1991 quando anunciaram que o U2 daria uma guinada diferente em sua carreira. Certamente vazaram comentários de influências eletrônicas e dançantes no álbum que foram interpretadas precipitadamente como dance music. Na verdade “Achtung baby” teve forte influência da viagem que os quatro fizeram à Berlim e se depararam com um efervescente cena musical de vanguarda. Daí surgiu o disco que de inaugura a fase experimental do U2, mas essencialmente rock n’ roll: ‘The fly’ é um artesanato de distorções e guitarras altas; ‘Untill the end of the world’ mostra como The Edge evoluiu de um guitarrista básico para um quase virtuoso; ‘Who’s Gonna Ride Your Wild Horses’ é o U2 de sempre. Claro, ‘Zoo station’, faixa que inicia os trabalhos causa estranheza na primeira audição, ‘Even Better Than The Real Thing’ também destoa do que o U2 costumava fazer, ‘Mysterious ways’ é um flerte com a world music, mas nada disso impediu que o disco fosse bem recebido pela crítica e pelos fãs. É o fim do deslumbramento com a América e surgimento de uma banda mais audaciosa artisticamente.

Zooropa (1993)

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Composto durante a turnê de promoção de “Achtung Baby”, “Zooropa” é o ponto alto da fase experimental do U2. Artisticamente é o mais rico e nesse há um claro flerte com a música eletrônica, como na música ‘Lemon’ e na faixa título. Mas há lugar, é claro, para canções que remetem ao estilo da banda como ‘Stay (faraway so close)’ e ‘Baby Face’. E ainda se encerra com a belíssima ‘The Wanderer’, com Johnny Cash. Se essa fase tem seu paralelismo com a trilogia berlinense de David Bowie, esse seria o “Low” do U2.

Pop (1997)

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Agora sim, o U2 gravou um disco quase dance…e não agradou. Não que seja de todo ruim, talvez incompreendido. Dessa vez as influências são o techno europeu, sobretudo o inglês. Há bons momentos como ‘Stairing at the sun’, ‘Mofo’ e ‘Last night on earth’, mas o que incomoda aqui é que a banda parece estar tentando se autoafirmar, mostrando que não envelheceu e está antenada com as novidades.

All That You Can’t Leave Behind (2000)

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É um processo natural: banda começa a envelhecer, se recusa a aceitar o fato e lança um disco seguindo uma tendência “muderna”, como uma forma de mostrar que ainda tem combustível para queimar. Depois a banda cai em si, percebe que um dia ela criou uma tendência ao invés de seguir uma tendência, e com o endosso dos fãs ela retoma as raízes. “All That You Can’t Leave Behind” é justamente isso, a volta às raízes passada a estranheza do álbum anterior. Não se compara a “Boy” ou “Joshua Tree”, mas é um trabalho honesto de uma banda que sabe que não vai mais revolucionar nada, mas o que não impede de continuar fazendo bons trabalhos. Destaque para a faixa de trabalho ‘Beautiful day’ e não estourada ‘Wild honey’.

How To Dismantle An Atomic Bomb (2004)

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O disco é praticamente uma continuação do anterior. Melodias bem azeitadas, rocks básicos e diretos como o single ‘Vertigo’. É sem dúvida o disco mais rock que o U2 gravou nos últimos anos. A banda aqui continua apostando na fórmula do time que está ganhando em não mexe no esquema tático adotado no álbum anterior. Destaques são a tocante ‘Sometimes you can’t make it on your own’ (feita para o pai de Bono, falecido em 2001) e ‘City of blinding lights’, com um clima que remete à fase anos 80.

No Line on the Horizon (2009)

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A princípio seria um disco que empreenderia uma mudança. Primeiro o formato. Seriam lançados dois EPs. E depois por a banda estar trabalhando com o produtor Rick Rubin. Essa intenção de inovar pode até ser sentida sutilmente em algumas faixas, mas, no fim, optou-se pelo convencional. Os EPs foram condensados em um álbum e os produtores Brian Eno e Daniel Lenois, antigos colaboradores da banda, foram chamados para substituir Rubin, cujas sessões pouco foram aproveitadas. O resultado é um disco apenas correto, mas não muito inspirado. ‘Get on your boots’, por exemplo, música escolhida para ser o primeiro single, parece uma xerox de ‘Vertigo’. Os momentos inspirados ficam mesmo com a faixa título e ‘Magnificent’.

Songs of Innocence (2014)

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O último disco do U2 chegou ao mercado causando polêmica. Tudo devido à “Promoção” do álbum, que consistia em pipocar aleatoriamente nos iPhones do mundo todo. Para os fãs foi um presente; para os não-fãs um presente de grego, pois, a princípio, não era possível desinstalar o arquivo. É um disco que mescla composições inspiradas como ‘Song for someone’, ‘Iris (Hold Me Close)’ e ‘Raised by Wolves’ com outras um tanto genéricas (leia a crítica aqui).