Apaixonada por literatura e vinda de uma família de amantes de livros que sofreram com problemas de visão, Denise Schittine se inspirou na novela Mondo di carta, de Pirandello, para buscar na vida real como os homens que ficam cegos reconstroem sua relação com o texto.  Logo no começo de sua jornada, observou que todo leitor é cego de alguma maneira. “Cego aos objetivos do autor e aos caminhos que vai percorrer”, escreve na introdução de “Ler e escrever no escuro”, livro publicado pela Editora Paz & Terra.

Estabelecendo um diálogo entre autores e leitores e se fundamentando na perspectiva de estudiosos como Roland Barthes, o livro perpassa questões que surgem para o leitor e o autor cegos, como o ambiente da leitura e as relações de privacidade e liberdade, o papel do ledor, o uso de audiobooks e o aprendizado do sistema braile.

Doutora em Literatura, Schittine se vale também de duas conhecidas histórias de cegueira no universo literário. A do argentino Jorge Luis Borges, que, depois de ficar cego, voltou-se inteiramente para a tradição oral e para a poesia clássica, e o caso de João Cabral de Melo Neto, que resistiu à perda da visão evitando a presença do ledor e afirmando que não tinha paciência e nem ouvido para a escuta. Seu maior ressentimento era não poder olhar mais as palavras.

“Ler e escrever no escuro” contribui para a reflexão sobre a leitura e a formação de leitores para além do retrato da cegueira: “Comecei este trabalhando imaginando que estava na dianteira: eu enxergava, eu pesquisava, eu conhecia os teóricos, eu ia como guia, à frente deles com meu báculo. Era eu a mulher do médico em ‘Ensaio sobre a cegueira’. Mas, também como ela, aprendi aos poucos a observar em silêncio os gestos, os movimentos e as vozes desses cegos, a entrar um pouco no mundo deles. Ao cabo de alguns dias, tinha perdido o meu báculo, estava no escuro do labirinto textual  e, por incrível que pareça, os meus guias para chegar ao centro foram eles. Não tinha mais a ilusão de ser a única dona do fio de Ariadne. Ele me foi estendido por homens de olhos enfermos, mas de mãos firmes que, comigo, trançaram e teceram os fios desse texto”, declara Schittine.

Orelha do jornalista e escritor  Mauro Ventura

Denise Schittine tinha 14 anos quando se viu irremediavelmente apaixonada. No instante em que aquele professor baixinho e carrancudo começou a leitura de Ulisses, de James Joyce, o que era uma atividade maçante e tediosa se transformou num encantamento pela literatura que a acompanha por toda a vida.

Do Ulisses de Joyce ao Ulisses de Homero, são muitos os caminhos que ela percorre aqui, ao tratar de como autores e escritores que ficaram cegos criaram estratégias para continuar produzindo e vivenciando seu amor pelos livros. Ao mesmo tempo, o leitor acompanha a própria travessia intelectual e afetiva da autora pelo fascinante universo literário.

Neste livro original, que mostra erudição sem afetação, inteligência sem pedantismo, Denise mostra que ficar cego não é estar condenado a se distanciar do mundo dos livros. Ela revela que a memória, por mais imperfeita que seja, surge como uma saída quando os olhos faltam. E mergulha na figura do ledor, novo guia que se interpõe entre a escrita e o leitor e o autor cego. Esse Outro se torna agora o principal acesso às palavras e precisa ter como requisito fundamental o amor incondicional pelo texto.

Nesta viagem fascinante, passamos por Sherazade, a primeira ledora, que narra para se manter viva, revisitamos a mitologia grega, vamos até os cegos do Instituto Benjamin Constant, percorremos  a obra de autores como John Milton, Dante Alighieri, Jorge Luis Borges, José Mindlin e João Cabral de Melo Neto, recuamos à infância quando, ao pé da cama, pedimos “mais uma história” à mãe e chegamos até a um campo de concentração, onde num bloco para crianças uma pequena biblioteca escondida instaura o prazer da leitura num ambiente de terror.

A todo momento, a importância da leitura é reafirmada – numa época em que ela se vê ameaçada pelas inúmeras distrações e ocupações do dia a dia. Denise comprova como, ao abrirmos os livros, nos impregnamos pela fantasia e pela imaginação, estendemos nosso tempo e ganhamos fiéis companheiros de jornada por essa misteriosa e surpreendente aventura que é a vida.

Denise Schittine é doutora em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e Universidade Nacional de Rosário (Argentina), mestre em Comunicação Social pela UFRJ e graduada em Jornalismo pela mesma instituição. Autora de Blog: comunicação e escrita íntima na internet, publicado pela Civilização Brasileira.