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Peirópolis lança álbum ilustrado sobre comportamento obsessivo

A  editora paulista Peirópolis em sua missão de reconhecimento da diversidade cultural e dos valores comuns a todas as culturas e tradições, se destaca pelo seu catálogo infanto-juvenil, vencedora por três vezes do Prêmio White Ravens, uma das grandes premiações internacionais na área. Como sempre lança títulos que difundem novos olhares para temas bem atuais, como é o caso do álbum ilustrado A menina que organizava (40 pp, R$ 39) que trata de um problema que afeta muitas pessoas nos dias de hoje, o transtorno obsessivo-compulsivo.

O livro de Eve Ferretti e Fabiola Werlang narra a trajetória de uma menina verdadeiramente ordeira, ou seria uma bordadeira inconformada? Na escola estava sempre impecável, com perfume e o uniforme sem sujeita, em casa arrumava desde a cozinha até a sala de esta e até na hora de dormir não se mexia para evitar que o lençol ficasse amassado, mas não queria saber de brincadeiras. Em imagens emolduradas sobre paredes marcadas pelo tempo, Eve Ferretti traz para a narrativa um clima que em nada combina com os rituais perfeccionistas da personagem. As autoras compartilham feições próprias de sua personalidade ou de pessoas com quem conviveram para, sem julgamento, iluminar aspectos do comportamento humano.

Abaixo, entrevista com a autora sobre o livro, compilado do site da editora:

Como nasceu este livro?

EVE – Tive um relacionamento de dois anos com um rapaz que tinha mania de limpeza e organização. Ele tinha um grau até leve de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), mas a mãe dele tinha num grau mais elevado. Ela não abria a janela da frente pra não entrar poeira, também não guardava retratos para não juntar traças, e todas as pias da casa tinham um paninho do lado; “os de casa” já sabiam que aquele paninho era para secar as gotas d’água que tanto a incomodavam.

Terminado o relacionamento eu chorei muito, achei que meu mundo ia acabar, e depois de dois ou três meses, acordei numa madrugada com este livro na cabeça, do início ao final, com as ilustrações também.  Só depois desse fluxo criativo me dei conta de que o livro era um desabafo, uma forma de lidar com aquelas pessoas. Eu pessoalmente acho a bagunça poética. Sou muito feliz na minha bagunça.

Como foi a criação desta personagem em parceria com a Fabiola Werlang?

EVE – Estava claro para mim que o TOC influenciaria toda a vida daquela personagem. Seus relacionamentos e até sua forma física iria se moldar pelos movimentos repetitivos, posturas até torturantes às quais ela submetia seu corpo. Também estava claro que a personagem deveria transmitir sua obsessão por meio de situações cotidianas. Mostrei o primeiro esboço para a Fabiola, e ela adorou. Poliu e burilou o texto, trabalhando o aspecto poético da linguagem e trazendo maneiras sutis de transmitir a complexidade da personagem. Depois de ler o texto trabalhado por Fabiola me emocionei, ela fez com que a história crescesse.

Quanto essa personagem tem de suas criadoras?

EVE – Bem, eu amo a bagunça – não a sujeira, mas a bagunça acho poética! No fundo somos todos obsessivos quando amamos algo, e, no fundo, cada um borda seu próprio céu para pendurar na janela. Lembro que na infância conheci umas tias bem idosas, e minha mãe contava que a casa delas era impecável, que quando dormiam nem se mexiam para  não amassar o lençol. Acho que comportamentos assim sempre me impressionaram, até por ter um comportamento inverso (risos). Ironicamente tive de “desenvolver TOC ” por glúten, pois sou celíaca e devo evitar a contaminação cruzada – ou seja, ninguém pode sequer tocar na louça que uso, ou no meu teclado; também não posso tocar meu sobrinho depois de comer pão. E não posso beijar os “gajos contaminados”. Enfim, acho que a “Menina” me preparou para viver a vida que vivo hoje, e,  sim todos me acham estranha (risos). Já a Fabiola compartilha com a personagem a predileção pela simetria, a vontade de colocar tudo no lugar, de fazer as coisas se encaixarem. Para ela é uma diversão e um alívio jogar fora tudo que não tem mais serventia; desacumular, abrir espaço e renovar as energias.

A menina que organizava manteve seus hábitos e rituais cotidianos durante toda a vida. Embora tenha sido rotulada, nunca mostrou-se insatisfeita ou infeliz com seu jeito de ser. 

EVE – Algumas passagens do livro dão sinais do preconceito que ela sofria: o padre fugia dela; a mãe achava esquisito;, o pai se divertia com as manias da filha enquanto ela era criança… Mas não conto no livro se isso mudou com o passar dos anos, deixo em aberto. A velhice solitária dela ao lado de ratos e rachaduras mostra o quanto ela ficou isolada. Mas é verdade que a personagem nunca sofreu realmente; vivia no universo dela, plena e feliz. A obsessão era tão forte que tristemente não sentiu a dor da partida da mãe ou do pai, continuou limpando e limpando… Organizando e organizando… Aos olhos dos outros tornou-se fria pela mania, mas era feliz no seu exercício diário de arrumação, e assim o fez até não poder mais. Por anos a fio limpou, organizou e descartou o que pudesse juntar sujeira, e acabou estendendo esse comportamento à vida, às pessoas ao redor…

O leitor acompanha a personagem da infância à velhice. Como você vê a identificação do pequeno leitor com o livro?

EVE – Acredito que será tão instigante quanto para um leitor adulto acompanhar o desenrolar da vida da personagem, que também reflete a brevidade da vida… Embora as crianças convivam com pessoas de todas as idades, nem sempre é fácil para elas imaginar que a avó também já foi criança, ou que elas ficarão idosas um dia. Acreditamos que o livro pode ajudar os pequenos a traçar essa linha que une a infância à velhice.

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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