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Cannon de Wallace Wood: espionagem, Guerra Fria e erotismo

Wallace “Wally” Wood é considerado um dos maiores quadrinistas de todos os tempos. Artista prolífico, enveredou pelos quadrinhos da ficção científica/terror/crime da EC a paródias na MAD, passando das daily strips ao Demolidor da Marvel, do undeground da Witzen para o erotismo e pornô dos seus últimos anos… Sua maravilhosa, relativamente curta e trágica carreira deixou sua marca, não somente por sua arte, mas pelo desenvolvimento de um enquadramento de 22 painéis que servem tanto como escamoteamento, quanto como narrativa, que segundo o mesmo sempre funciona. E como…

Esse cara ganhou recentemente o seu primeiro título em português, Cannon, pela audaz Pipoca&Nanquim. Até então, seu nome só tinha aparecido nos créditos de títulos em série, como Demolidor da Ebal e da Bloch, ou MAD da Vecchi ou ainda Superaventuras Marvel da Abril, entre outras. E a mais nova editora brasileira traz numa edição caprichada, em capa dura, um Wood sem amarras, em seu auge, numa de suas produções mais legítimas.

A personagem Sally Forth, que apareceu pela primeira vez em junho de 1968, no Military News.

Originalmente Cannon foi serializada junto com Sally Forth no The Overseas Weekly, um periódico militar para soldados no exterior, publicado de 1970 a 1973. Como fez com a Sally, seu gosto pelo erotismo continua em Cannon, uma série mais bélica, com um toque erótico, repleta de lindas mulheres de corpos perfeitos. E um aspecto interessante sobre a publicação é o fato de que não estava regulada pelas restrições sufocantes do Comics Code Authority, era para os militares, não precisava de censura, pois os garotos estavam lutando pela herança patriota dos Estados Unidos.

Em tempos de Guerra Fria, o agente John Cannon é o soldado perfeito, um herói norte-americano, um espião por trás das linhas inimigas, um garanhão em meio a lindas mulheres, que perdem a roupa em meio a ação e que nunca se preocupam em recuperá-las. John Cannon é o cara, bem antes do Rambo, Ethan Hunt ou Jason Bourne ou ainda James Bond, não tem para ninguém. A representação sem igual do que um soldado deveria ser em uma guerra: ousado, durão e disposto a qualquer coisa para defender seu país.

Saindo em tirinhas, o agente secreto Cannon é talvez um dos quadrinhos de maior empoderamento masculino já feitos. Usando esse termo em voga atualmente, trato desta maneira pela abordagem selvagem e provocativa que o autor desenvolve seu personagem, mostrando ao seu leitor o que queriam ver: aventura, testosterona, espionagem, tiroteio, mulheres lindas nuas e sexo.

A edição brasileira, que segue o que a Fantagraphics editou nos EUA, reúne todas as tiras criadas por Wood entre os anos 1970 e 1973, publicadas em um período de 30 meses. E não há maior prova do domínio artístico de Wood do que o Cannon, onde vemos um produto perfeito, um material que poderia ter afundado no território da Bíblia de Tijuana, do pornográfico, mas o trabalho é tão lindamente representado que é impossível atacar o uso dos nus envolvido. A arte de Wally, mesmo com as incursões na pornografia real, é considerada uma das melhores formas de ver o pragmatismo no meio, pela praticidade das soluções, de forma que seja sempre o mais objetivo.

Cannon é um artefato interessante na forma como os personagens masculinos afirmam sua masculinidade por meio de atos de violência. Em contexto, é difícil não ver o título como uma resposta à ansiedade pós-guerra e ao medo do movimento feminista, que estava ganhando força. Por isso que chama a atenção a misogenia e a violência gratuita das histórias, os leitores terão dificuldade em encontrar três ou quatro páginas consecutivas aqui sem massacre de metralhadora ou nudez gratuita.  E, apesar disso tudo, os excessos  tornam-se estranhamente humorístico, chegando às vezes a se tornar auto-paródico.

A edição em capa dura e o formato diferente na horizontal faz do título um capricho, algo que os editores da Pipoca & Nanquim retratam nos vídeos em seu canal do youtube. Fãs que entraram no mercado de quadrinhos brasileiros para suprir espaços e lacunas deixadas pelas outras e mesmo estimular que outras editoras também o façam: trazer quadrinhos de encher os olhos.

São 276 páginas, numa experiência de leitura que definitivamente é melhor aproveitada em pequenas doses. Por mais divertida e atraente sejam as façanhas do superespião, elas começam a perder seu apelo e tornam-se repetitivas quando lemos de uma vez.

Wally Wood com seu Cannon traz a aura norte-americana dos anos 1970 com uma arte fantástica e a editora faz um trabalho maravilhoso por trazer esse título para nós. Recomendo.

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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