David Lloyd foi uma das presenças ilustres que passaram pelo Geek & Game Rio Festival, evento de games, quadrinhos e cultura pop realizado no Riocentro, na zona oeste do Rio de Janeiro. O desenhista de “V de Vingança”, cultuada graphic novel de Alan Moore, já havia comparecido no evento no primeiro dia e participado como convidado especial do painel do gamer youtuber Zangado. No último sábado (segundo dia do evento), foi a vez do painel Quadrinhos Como Ferramenta De Protesto. A mesa teve mediação de Ana Cristina Rodrigues e era composta da criadora da HQ “Na Ponta da Língua” Beliza Buzollo e Luciano Cunha, criador de “Doutrinador”, HQ nacional que virará série animada e filme em breve.

A função do painel foi debater o quadrinho como forma de contestação política e social da ordem das coisas. E “V de Vingança” é, sem dúvida, uma referência basilar no que tange esse assunto. “Na Ponta da Língua” trabalha sobre o dia a dia do mundo das lésbicas, de forma bem humorada, mas com muita crítica ao preconceito, ao machismo e ao conservadorismo da sociedade, naturalizando o discurso.  Já o “Doutrinador” foi extremamente representativo do sentimento das jornadas de 2013, uma vez que seu visual se compõe de jaqueta, capuz e máscara de gás, indumentária usada pelos manifestantes que confrontavam os excessos dos policiais, os chamados Black blocks. O personagem foi criado em 2010 e ganhou a máscara três meses antes das manifestações.

Perguntado como se sente ao ver um símbolo criado há 33 anos se refletir como ícone de contestação política atual, Lloyd disse que fica muito feliz. “A máscara pode representar protesto, mas sozinha ela não faz nada, infelizmente. Eu amo ver todo mundo que usa essa máscara para resistir O problema no mundo hoje é que não importa o quanto você protesta, você não pode fazer nada, porque está tudo fixado, tudo nas mãos de corporações.” Ele ainda completou dizendo que, o que o artista pode fazer é convencer as pessoas a perceberem a situação e refletirem.

O caráter propositalmente provocativo de “V” foi a outra pergunta feita pela mediadora a Lloyd. “Pudemos fazê-lo porque tínhamos liberdade. Falando de mainstream como Marvel e DC, o único motivo de eles não produzirem, de forma alguma, conteúdo de teor político é que há dinheiro envolvido. Ele citou o selo Vertigo como elemento fora da curva. Trata-se braço da DC Comics para desenvolvimento de HQs de temática mais adulta, do qual saiu, além de “V”, “Watchmen”, que também foi adaptada para o cinema, “Sandman” e “Preacher”. Em uma grande corporação como a DC isso não é possível, pois há o consenso de que quadrinhos são para crianças e eles não querem aborrecer os pais.

Dentro de um tema mais específico no âmbito político, Lloyd defende que a corrupção começa em nós mesmos, pois muitos já caíram na velha história do político que promete vantagem em troca de voto. Cabe a nós mudar isso. Perguntado sobre o filme, Lloyd foi diplomático, afirmando que há aqueles que consideram a obra original como a genuína, e de fato é. Apesar de o filme produto distinto, destacou o valor de ambas as mídias. No final do painel, surgiu um fã cosplayer do protagonista de “V” o que divertiu bastante o desenhista.