Artigo escrito por Ale Nagado

DEFINIÇÕES DE MERCADO

Quando se fala em analisar o mercado de quadrinhos brasileiros, deve-se ter em mente que a resposta vai depender do tipo de envolvimento que a pessoa tem com o assunto.

Para o editor e para o jornalista ou redator especializado, o mercado de quadrinhos nacionais deve parecer bom mesmo. Há muitos lançamentos em livrarias e a quantidade de revistas independentes é grande, mesmo que os autores pouco ganhem com isso. Na internet, há webcomics de alto nível que ganham fãs ardorosos pelas redes sociais, mas que também não geram lucros para seus autores. Para quem escreve sobre o assunto (e que geralmente também faz isso por amor à arte), não falta assunto e por isso o mercado também parece fantástico.

Para o ilustrador e o designer que fazem HQ por gosto e sem necessidade de grande produção mensal para seu sustento, também está bom. Essa categoria continua ganhando seu dinheiro com publicidade, ilustração editorial, artes gráficas ou algo relacionado, e sempre consegue tempo pra produzir suas HQs autorais sem se importar se elas serão pagas dignamente. Trabalhar como ilustrador ou designer é uma forma de exercer sua arte em mercados mais bem pagos e se municiar (artística e financeiramente) para o que mais gosta.

Os casos citados são de profissionais da área que podem dizer que o mercado está bom e simplesmente desqualificar as críticas, por mais que estas pareçam muitas vezes ranzinzas, rancorosas.

Do ponto de vista criativo, o momento realmente é dos melhores. Do ponto de vista de possibilidades de publicação, a época atual é empolgante, pois antigamente quem não entrava no mercado profissional de quadrinhos fazia fanzines em xerox. Hoje a tecnologia permite trabalhos independentes com alto nível de acabamento a custos acessíveis e com pequenas tiragens. A internet com seus blogs, fotologs, plataformas de leitura on-line e redes sociais aumentou as vitrines para mostrar seu trabalho e qualquer um pode tornar sua arte conhecida.

Mas quando se fala em MERCADO, deve-se lembrar que não devemos levar em conta somente o mercado de publicações impressas ou on-line, mas também considerar o mercado de trabalho. E que falar em mercado de trabalho implica em trabalhar por uma remuneração justa. Além de manifestação artística e cultural, HQ é também um produto e um ofício.

FAZENDO HQ PARA VIVER

Hoje, entre os que vivem de fazer HQ (e não charge, ilustração e afins), há os profissionais do estúdio MSP e os pequenos que produzem coisas como, por exemplo, Lulu Teen e Didi Mangá, entre um ou outro gato pingado. Há também os que produzem HQs para Marvel e DC Comics, sentindo os efeitos do mercado estrangeiro, não do nacional. Produzindo médias de mais de 20 páginas mensais e com prazos rigorosos e muitas exigências técnicas, esses artistas que encontraram abrigo no exterior podem dizer que são quadrinhistas brasileiros que produzem para um verdadeiro mercado de trabalho. Existem trabalhos brasileiros badalados e bem elaborados que renderam apenas valores simbólicos (quando muito) para seus autores. Mas nem sempre foi assim.

Até meados dos anos 1990 havia o quadrinhista profissional prestador de serviços que fazia freelance para estúdios brasileiros diversos. Licenciamentos nacionais de Disney e super-heróis japoneses da TV, celebridades como Xuxa, Gugu, Ana Maria Braga, Sergio Mallandro, Trapalhões, Faustão e Angélica tiveram seus gibis, bem como Leandro & Leonardo, Chaves, Chapolim e tantos outros títulos. E havia os títulos autorais, como Chiclete com Banana, Niquel Náusea, Piratas do Tietê, Geraldão, Mil Perigos, Porrada! Special, entre outros. Com produções mais populares e outras autorais, havia uma intensa movimentação de profissionais que tiravam a maior parte do seu sustento fazendo quadrinhos pra venda em bancas. Não era chique e nem glamuroso como hoje, mas dialogava com multidões. HQ nacional era cultura pop, no sentido de popular. Hoje está mais para cultura alternativa, de nichos. Há sucessos atuais da HQ nacional que não vendem nem 2 mil exemplares. 20 anos atrás, vender menos de 10 mil era cancelamento na certa. Isso em editoras como a Escala. Na Abril, a linha de corte era bem mais alta.

No meio disso tudo, eu faço parte de uma minoria meio silenciosa, que faz HQ institucional, coisa que raramente aparece na mídia, por ser fechada em interesses de alguma instituição privada ou governamental. Longe das atenções da mídia especializada, é uma categoria de HQ muito melhor remunerada do que a HQ editorial e há um pequeno mercado de trabalho para isso. Mas comecei a carreira nos quadrinhos pra banca, escrevendo cerca de 40 páginas de roteiro por mês para o finado Studio Velpa, que produzia versões de heróis japoneses da TV para a Ed. Abril e um pouco na EBAL. Jaspion 1 (Abril) vendeu 100 mil cópias, enquanto Goggle V (EBAL) passou das 50 mil, citando duas publicações onde trabalhei. O Street Fighter (Ed. Escala) vendia de 20 a 30 mil exemplares mensalmente e eu precisava escrever 28 páginas, com ou sem inspiração, para cada edição, tudo isso nos anos 1990. Com as mudanças do mercado, fui migrando para a comunicação institucional usando quadrinhos. Mas mantenho contato com o pessoal que ainda publica regularmente. E é com essa visão que digo que mercado de HQ no Brasil anda mal há muitos anos, porque quando penso em mercado, na situação do quadrinhista e na questão financeira.

O grande número de lançamentos de álbuns e revistas independentes camufla uma realidade: quase ninguém está ganhando bem pra publicar. Não é questão de querer ficar rico, e sim de tirar seu sustento dignamente. É o que se espera de qualquer atividade profissional. Em outros países, isso é meio de vida para centenas de profissionais. Aqui, poucas dezenas fazem isso, e estou sendo otimista.

MUDANÇAS DE PARADIGMA

Muitos apontam que o mercado para os autores brasileiros migrou das bancas para as livrarias. O resultado são trabalhos luxuosos com tiragens pequenas. Para as editoras, um bom negócio, pois a maioria paga por royalties e ganha pelo volume de títulos. Para os autores, os ganhos são modestos, a menos que o álbum entre em lista de compras governamentais, que adquirem aos milhares títulos para abastecer bibliotecas.

Publicar é uma coisa e viver do trabalho publicado é outra. Quem se promove bem e é talentoso a ponto de conseguir fãs apoiadores de seu trabalho é automaticamente visto como um profissional. O mercado não vai bem para no sentido de que não oferece ao autor condições para que ele viva de seu trabalho como autor de HQs. Claro que apontar problemas e distorções é apenas uma parte da questão.

Pensar em soluções para a situação é complicado. Alguns caem no discurso de nacionalismo xenófobo, sonhando em banir das terras brasileiras os “invasores estrangeiros” e fazer todo mundo ler sobre figuras históricas ou folclóricas de nosso país. Sendo um descendente de japoneses sem mistura racial alguma, criado em cidade grande e sem me identificar com folclore regional ou culturas afro-brasileiras, acabo sendo deixado de lado quando se trata de definir o “brasileiro legítimo” e a “legítima cultura brasileira”. Esse papo nacionalista mais atrapalha do que ajuda.

Vez por outra, surge a discussão sobre cotas de produção e medidas protecionistas radicais. Não vejo isso como solução, porque o governo até pode, em tese, obrigar editoras a publicar certa quantidade de autores nacionais, mas não pode obrigar as pessoas, via decreto, a comprar HQ nacional. O leitor compra o que acha bom, aquilo com o qual se interessa. Com financiamento público, pode-se até ganhar bem por HQs que atrairiam pouca gente. Como trabalhos que apenas repassam visões de História oficial ou tornam palatável leituras das quais os jovens costumam fugir. Mas quando, por algum motivo, a ajuda do governo acaba, o “mercado” fica sem sustentação.

O PAPEL DAS EDITORAS

Agora caímos em outro problema: editoras são empresas e não casas de caridade. Elas buscam lucro e, quanto mais garantido, melhor. O autor nacional tem que se concorrer com produtos que vêm de indústrias consolidadas, amparadas em marketing multimídia (cinema, games, TV…) antigas e que sempre investiram em seu artista local, desde o começo. Aqui, a preferência sempre foi pelo material estrangeiro de ponta. Já ouvi editor dizer que, se chegar um brasileiro com um projeto bom e em iguais condições com um japonês (em volume e qualidade), publica. Isso se ele aceitar trabalhar sem receber até que o projeto decole. Para viabilizar comercialmente um gibi nacional em banca, não se pode errar. No Japão e nos EUA, muitos autores medianos conseguem viver de suas HQs, sem fazerem grandes empreendimentos ou obras de arte. Se isso fosse possível no Brasil, seria sinal de um mercado decente.

No passado, EBAL, RGE, Abril e outros poderiam ter seguido o caminho de priorizar investimento em mão de obra local como fizeram a Marvel e DC nos EUA, ou Shonen Jump, Sunday e afins no Japão. Tomando o exemplo japonês, lá se iniciou publicando material dos EUA e Europa, mas logo optaram por mão de obra local para buscar maior identificação com os leitores e assim vender mais. Aqui as editoras pioneiras das HQs publicaram clássicos como o Pato Donald, Batman, Príncipe Valente, Spirit e outros, maravilhando gerações de leitores, mas quase nada fizeram pelo autor nacional.

No Brasil, o mercado de HQs já começou errado e a maioria dos editores é focada em publicar grandes obras internacionais, não em fomentar e incentivar obras locais porque o investimento assim é mais duvidoso do que aquilo que foi já consagrado no exterior. No Brasil, é mais comum o editor de HQ selecionar e adaptar material pronto. No Japão e EUA, acompanha o processo criativo.

Nesse mercado complicado, Maurício de Sousa é uma exceção louvável que dificilmente se repetirá. Vez por outra, empreitadas são anunciadas, mas as dificuldades de alcançar viabilidade financeira para se produzir mensalmente são as mesmas de sempre. Quem já teve que produzir todo mês 30, 40 ou mais páginas por mês de HQ sabe bem a medida do que é ser um profissional de quadrinhos em tempo integral.

Apesar de totalmente contra cotas nacionalistas, acredito que incentivos fiscais à produção local seriam benéficos. Quem monta editora e sai em busca de patrocínio e financiamentos para viabilizar sua empreitada (imprimir, distribuir e pagar artistas) encontra grandes barreiras pela frente. Em qualquer país do mundo, governos agem para proteger sua mão de obra local. Ninguém fala aqui em “sustentar artista vagabundo” (um papo que sempre aparece), mas em dar melhores condições para que fazer HQ no Brasil seja um negócio sustentável como é em outros países.

Nessa história que lembra mais a antiga questão “copo meio cheio x copo meio vazio”, uma coisa é certa: A percepção sobre o que é mercado de HQ tem se tornado cada vez mais relativa. Pra quem defende que basta publicar, está ótimo. Para quem conheceu um mercado de trabalho real e pagava suas contas fazendo HQ e não ilustração ou trabalhos de design, não está bom porque há pouco espaço para se viver de HQ.

Com as mudanças de paradigma, tudo é relativo hoje em dia. E não devia ser assim para um assunto de ordem tão prática. Afinal, “mercado” é a definição de uma relação de compra e venda, coisa que passa, obviamente, pelos rendimentos de quem produz.

Alexandre Nagado tem 40 anos, 23 deles dedicados profissionalmente ao desenho e aos quadrinhos. Produziu Flashman, Changeman, Street Fighter, criou o álbum Mangá Tropical, o livro Almanaque da Cultura Pop Japonesa. Já escreveu para as revistas Herói e Henshin e os sites Omelete e Bigorna, entre outros. Nas HQs institucionais, produziu para a Votorantim, Santander Banespa, CESP, FIS, DAEE, Bosch e outras. Eventualmente, faz seus webcomics pra espairecer.
Site: www.nagado.com / Blog Sushi POP: www.nagado.blogspot.com /
No Twitter: @ale_nagado

  • Bom texto! Eu tive participação no último projeto de lei sobre cotas de quadrinhos brasileiros no congresso nacional. A idéia foi minha. Falei com um deputado. Infelizmente o assunto morreu pq esse deputado (simplício Mário) não está mais na casa e nunca consegui incentivar outro a continuar correndo atrás.

    Hoje entendo que cotas obrigatórias não funcionam, mas é possível nos movimentarmos para que o projeto de lei vise incentivos fiscais para determinadas editoras que atinjam um mínimo de publicação nacional por vontade própria. Vamos nos movimentar?

  • Caio Lucas

    Logo vê que é um homem que não tem um mínimo conhecimento sobre quadrinhos, desenho, roteiro, nada. É a única justificativa para falar uma bobagem dessas. Mostra todo seu preconceito com as revistas do gênero animê, mangá publicadas no Brasil.
    Pessoas como senhor que são desnecessárias. Não tem o direito de julgar um profissional como o Alexandre Nagado. Um dos nossos grandes nomes do quadrinho nacional. O senhor não é quadrinista, nem curioso nem NADA, NÃO ENTENDE NADA SOBRE QUADRINHOS.
    Em sua arrogância acredito que nuca pediria um conselho, mas aqui vai um: Não faça comentários irresponsáveis sobre as coisas que você não conhece.

    Quer apaziguar as suas frustrações pessoais e profissionais criticando e caluniando os outros?! Vergonhoso.

  • Caio Lucas

    Me referi ao comentário feito pelo facebook pelo J.r. Pereira.

  • leo

    “incentivos fiscais para determinadas editoras que atinjam um mínimo de publicação nacional por vontade própria.”

    Cara, gostei disso. Torço pra que seja aprovado um projeto como esse, parece o tipo de coisa que pode dar certo.

    • “incentivos ficiass para determinadas editoras que atinjam um mínimo de publicação nacional por vontade própria.”Cara, gostei disso. Torço pra que seja aprovado um projeto como esse, parece o tipo de coisa que pode dar certo.

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  • Lene Chaves

    Uma opinião bem lúcida sobre o status do mercado nacional de quadrinhos.