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Face Oculta aborda a ambição desenfreada e o terror da luta pela liberdade

A Panini, detentora dos direitos de distribuição da Sergio Bonelli Editore, reinicia a publicação da linha de quadrinhos italianos, que merece mais atenção das editoras, como a Lorentz está fazendo com o Dylan Dog. Um título como Face Oculta (Volto Nascosto) retoma seu caminho no Brasil. Face Oculta – Volume Um traz as quatro histórias: Os Saqueadores do DesertoBandidosAmor e Morte e Amba Alagi, sendo as duas últimas inéditas no País, e esperamos sua continuidade.

Com 14 capítulos na versão original, a série mistura uma parte da história italiana, desconhecida para a maioria com uma sólida trama narrativa, apresentando mais uma demonstração do talento de um autor veterano como Gianfranco Manfredi, criador do personagem Mágico Vento. 

Publicada na Itália entre 2007 e 2008, um sucesso de crítica e vendas, Manfredi percebeu e decidiu mostrar algo fora do padrão dos fumetti e mesmo dos livros oficiais de História. A história é uma aventura com um forte embasamento histórico e um cenário exótico, que desempenham um papel importante em termos estéticos e narrativos.  Algo mais substancialmente realista, contada aos olhos de Ugo Pastore, um jovem, cuja família de comerciantes se envolve na exploração da Etiópia. Onde ele e seu país, a Itália, em sua expansão colonialista, irão enfrentar a resistência por trás do Face Oculta, um homem que usa máscara de prata e lidera uma legião de soldados, uma narrativa que lembra muito a mitologia islâmica.

Sem alterar a história oficial, Manfredi relata, com facilidade, as vicissitudes de um elenco completo de personagens reais e fictícios cujas histórias se cruzam de maneira complexa, integrando de forma complementar e nunca conflitante com os fatos históricos reais, estruturando-se em uma novela gráfica corais, ricos e articulados, estabelecidos entre a Itália pós-unificação e a África colonial.

A importância do fumetti não se limita apenas ao nível artístico, mas assume a forma de uma divulgação efetiva, ferramenta cultural. O caso clássico de aprender enquanto se diverte, de fato, se materializa neste volume, que liga os pontos e os espaços, contribuindo historicamente em escolher um período obscuro da Itália e decidir torná-lo tão protagonista quanto os personagens criados para ambientar a narrativa.

A arte é um caso a parte, pois tendo desenhistas como Goran Parlov (criador visual do personagem), Massimo Rotundo (responsável pelas capas), Giuseppe Matteoni, Ersin Burak, Roberto Diso, Giovanni Freghieri, Alessandro Nespolino, Leomacs e Gigi Simeoni ao longo das edições, faz com que Face Oculta seja uma obra de arte. Neste primeiro volume, Parlov, atualmente empenhado no cenário internacional com a Marvel , fica com o primeiro capítulo, enquanto Rotundo, Nespolino e Bursak realiza os outros três capítulos. Mesmo com a rotatividade artística, o trato que cada um faz segue um alinhamento gráfico tão bem feito que é impossível notar a diferença dos desenhos que fazem.

Enfim, o resultado é uma narrativa cheia de ação, com uma arte primorosa, diálogos interessantes, base e lições histórico-sociais, bem reflexivas por sinal. A editora acerta em fazer um volume que traz as quatro primeiras edições, no formato italiano, com introduções do autor apresentando suas intenções para cada um dos capítulos. 

 

 

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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