Quem espera encontrar, em Gênesis por Robert Crumb, o quadrinista iconoclasta e underground dos anos 60, talvezse decepcione. Logo na Introdução, Crumb diz que apenas buscou ilustrar o Livro do Gênesis, abrindo mão do humor visual que vemos na maioria de seus trabalhos. O quadrinista manteve praticamente intacto o texto original da Bíblia, reproduzido a partir de várias traduções para a língua inglesa, mas principalmente da versão publicada por Robert Alter em 2004.

Pode parecer uma opção estranha, mas ao lermos a HQ percebemos o quanto Crumb acertou em sua escolha. Estamos familiarizados com as adaptações das histórias do Gênesis feitas para várias mídias, como cinema, TV e livros ilustrados, mas essas adaptações não costumam ser fiéis ao texto original. Até mesmo as traduções da Bíblia para o português tomam certas liberdades, na tentativa de tornar as histórias mais compreensíveis e menos estranhas para os fiéis religiosos. Na HQ de Crumb, ao contrário, o texto original do Gênesis é apresentado com todas suas contradições e repetições redundantes. Algumas das histórias parecem mesmo sem sentido, o que é compreensível, afinal foram escritas há milhares de anos, e as intenções originais do autor, ou autores, se perderam no tempo. A opção de usar o texto original completo, porém, torna a leitura lenta nas passagens em que a narrativa é repetitiva ou menos interessante.

Uma ótima e concisa análise do texto do Gênesis foi feita pelo crítico literário Harold Bloom. Mas Bloom parece não ter muito conhecimento sobre quadrinhos, e ficou bastante incomodado com a arte de Crumb.

Crumb não acredita que a Bíblia seja “a palavra de Deus”, mas sim “a palavra dos homens”, um conjunto de textos de autoria coletiva, inspirados por lendas e fatos históricos, escritos e reescritos ao longo de muitos anos. Para ilustrar as histórias pesquisou as mais diversas fontes visuais, desde material arqueológico até filmes de Hollywood. Não se pode dizer que as ilustrações do livro sejam realistas, mas elas possuem uma inspiração histórica, ou pelo menos é claro o esforço do artista em recriar as roupas, feições e paisagens das épocas e locais em que se passam as narrativas do Gênesis.

Ao contrário do que o próprio quadrinista diz na Introdução, seu trabalho não se limita a ilustrar o texto. Crumb possui várias opiniões sobre o Gênesis, e elas são expostas não só na Introdução e nos comentários reunidos no final do livro, mas também na própria arte da HQ. Em nenhum momento os desenhos tentam seduzir o leitor ou tornar mais simpático o que é dito pelo texto. A arte de Crumb provoca no leitor o distanciamento necessário para que a narrativa possa ser apreciada de modo crítico. É nesta relação entre texto e imagem, sem veneração, que está uma das maiores qualidades da HQ.

Gênesis não é a Obra-Prima de Crumb, mas tem grande valor por representar um momento de rara sutileza e objetividade na obra do autor, que na maturidade busca novos caminhos para sua arte.