Entre os autores que faziam quadrinhos underground nos anos 1980, Daniel Clowes foi um dos que mais se destacou. Nunca se acomodou, continuou aprimorando sua técnica narrativa e criou um conjunto de novelas gráficas de altíssima qualidade, sem pontos baixos. Ao lado de Charles Burns e Chris Ware, está entre os melhores quadrinistas contemporâneos. Mesmo assim, teve apenas uma novela gráfica, Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, publicada no Brasil.

A evolução de seu trabalho ficou evidente no decorrer da publicação de suas revistas de quadrinhos Lloyd Llewellyn e Eightball. O humor bizarro das primeiras HQs foi aos poucos substituído por uma visão pessimista, melancólica do mundo. Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, publicada na Eightball entre 1989 e 1993, foi a obra de transição, com uma trama absurda e surreal, humor negro e violência extrema.

Entre 1993 e 1997, também na Eightball, foi publicada em capítulos a HQ Ghost World, que seria lançada no formato de novela gráfica em 1997, atingiria um público amplo e tornaria Clowes conhecido fora do circuito underground. Uma crítica publicda na revista Time declarava que Ghost World era um clássico instantâneo. Outros críticos chegaram a comparar a obra ao livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, pela autenticidade com que mostrava as angústias da adolescência. Em 2001 foi lançado um filme baseado na HQ.

As personagens principais de Ghost World são a inquieta e impulsiva Enid e sua amiga inseparável e cúmplice Rebecca. As duas adolescentes, recém formadas no colegial, parecem não ter objetivos nem ocupações, além de criticar tudo e todos que encontram pela frente.

Enid, com seu humor amargo, parece refletir a personalidade de Clowes. Age como a líder da dupla, arrastando Rebecca para lugares bizarros e discursando sobre qualquer coisa que lhe passe pela cabeça. Rebecca, apesar de seguir passivamente Enid, é uma personagem mais comum, uma adolescente sem grandes ambições que não sabe bem o que fazer da vida.

As duas meninas perambulam pelos subúrbios de uma cidade americana típica, com sua infinidade de centros comerciais, casas de classe média e seus estranhos habitantes, como um neonazista, possíveis satanistas e um ex-padre pedófilo. Ghost World é a frase que aparece pichada em vários pontos da cidade, e descreve esse mundo onde se é solitário vivendo entre milhares de pessoas, uma América onde tudo parece bizarro e ridiculamente falso, como um restaurante que tenta vulgarmente imitar o estilo dos anos 1950 em plenos anos 1990.


Enid e Rebecca andam em círculos nesse mundo fantasma, protegidas pela sensação, típica da adolescência, de ser algo puro em meio a uma sociedade corrompida. Mas logo chega o momento em que é preciso amadurecer, decidir seu destino: pular fora ou se acomodar ao mundo fantasma. Cada garota toma um rumo, e a separação carrega a HQ de emoção. O final é aberto, misterioso e tocante, mas sem exageros.

A arte de Clowes combina perfeitamente com seus personagens estranhos e a arquitetura kitsch das cidades em que eles habitam. Uma pálida luz verde-azulada banha todos os quadros, segundo Clowes para passar a sensação de que o mundo fantasma da HQ é iluminado apenas pelo brilho artificial dos aparelhos de TV.

Desde 1997, Ghost World foi publicada pela Fantagraphics em vários tipos de encadernados. A mais econômica é a edição em capa mole, mas os fanáticos pelo trabalho de Clowes também podem adquirir a edição especial de luxo, lançada em 2008 com capa dura, esboços dos personagens, alguns comentários do autor e o roteiro do filme baseado na HQ.

  • Equipe Antigravidade

    O material até chegou ao Brasil. E em português.

    A Devir lançou Ghost World em Portugal e algumas cópias foram vendidas aqui. Mas poucas, imagino.

    Legal a matéria!

    Abraços,

    Maurício Muniz

  • gustavo_guima

    Não sabia dessa versão em português.
    Menos ruim que pelo menos algumas cópias tenham sido vendidas aqui. É uma obra fundamental e continua atual.
    Abraços

  • Ghost World é fantástico, é realmente uma pena esse tipo de material não chegar nas prateleiras das livrarias brasileiras. De qualquer modo belo texto Gustavo!

  • rosa

    meu sonho e ter esse quadrinho Enid é minha heroina!