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Jonathan Hickman em seu “Projeto Manhattan” aborda a Guerra Fria de maneira apócrifa e distópica

Apresentando uma capa simples, sem muita arte, que segue a original norte-americana, a Devir lança uma das séries mais interessantes do momento. Projeto Manhattan. Editada pela Image, o primeiro e o segundo volume trazem respectivamente os primeiros dez números da série regular, escrita por Jonathan Hickman e desenhada por Nick Pitarra, apresentando uma divertida ucronia, tendo como ponto de partida o célebre – e real –Projeto Manhattan, oferecendo uma perspectiva completamente distinta do período da Guerra Fria numa narrativa protagonizado por algumas das mentes mais brilhantes do século XX, como Einstein, Oppenheimer ou Enrico Fermi.

A história começa em meio a II Guerra Mundial, o general Leslie Groves está a frente dos Manhattan Projects, com os quais os Estados Unidos tratam não só de criar a primeira boma atômica, como aprendemos na escola, mas de diversos outros projetos científicos, tão bizarros e múltiplos quanto a mente dos personagens cientistas que serão apresentados.

Dentro das muitas propostas mainstream, Projeto Manhattan, é um sopro de ar fresco, não pela originalidade da ideia, (pois desde os anos 1980, a literatura cyberpunk tem apresentado ucronias parecidas) mas também pela maneira inteligente e desmitificadora que Hickman planeja e desenvolve a série, indo além do tema central, explorando infinitas possibilidades, como também questionando a realidade, ao mostrar diversas existências paralelas convertidas em uma das suas características, juntamente com as mais delirantes teorias conspiratórias e os mais insólitos clichês pulps.

Hickman deixa claro o que interessa nesta enredada e documentada ficção é a forma que apresenta os elementos reais, como no caso de colocar o verdadeiro Projeto Manhattan, como foi apresentado para o mundo, mas aqui sendo uma fachada para esconder o que realmente ocorreu. Amalgama a História com as mais delirantes fantasias, entrecruzando realidades paralelas e os reflexos extremos de alguns personagens. Hickman nos apresenta, em meio a realidade histórica, uma delirante fantasia conspiratória, onde vemos Einstein sendo substituído por um misterioso duplo seu de outra dimensão ou o respeitável Richard Feynman sendo um egocêntrico enamorado de seu próprio reflexo. São pequenos exemplos com os quais Hickman nos surpreende com uma ficção familiar e próxima da realidade, mas numa sinistra realidade paralela.

Hickman joga com a hipotética existência de uma organização paragovernamental encarregada de investigar mistérios e segredos que não podem chegar aos cidadãos comuns. Nesta realidade paralela, vemos as mais brilhantes mentes científicas são realmente cientistas loucos, daqueles protagonistas de uma pulp alucinante que das sombras manipulam presidentes norte-americanos como Roosevelt e Truman, decidindo a II Guerra Mundial, contatam civilizações alienígenas, incorporam dissidentes nazistas ou desenvolvem os mais misteriosos projetos. E durante a Guerra Fria, entram em contato com os seus homólogos do bloco soviético da Cidade das Estrelas. O autor fez um cuidadoso trabalho de documentação histórica para trazer a sua versão de personagens reais, convertendo-os em protagonistas de sua ficção, retorcendo-os no máximo e encaixando-os no tom pulp delirante de uma historia envolvente, curiosa e atraente.

No aspecto gráfico, Nick Pitarra se adapta perfeitamente às demandas do roteiro de  Hickman realizando um magnífico trabalho por meio de um desenho realista que incorpora o traço. Pitarra, pegando influências tão diversas como Frank Quitely ou Howard Chaykin, desenvolve com desembaraço diversos recursos narrativos, usando especialmente o uso da cor azul e vermelha, para caracterizar não só a personalidade de alguns dos personagens, mas os diversos planos de existência contrapostos ao que desenvolve a história, misturando diversas versões paralelas dos mesmos momentos da história principal.

Projeto Manhattan nos mostra um Hickman motivado, e não se engane com a capa. se mantiver o nível em toda a série, temos com certeza uma das séries para seguir em 2017. Irreverente e imaginativa. Que venha o terceiro volume, já anunciado para este início deste ano pela Devir e que abrangerá os números 11 a 15.

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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