The Littlest Pirate King é uma história em quadrinhos estranha e mórbida. Narra as peripécias de um grupo de piratas mortos-vivos que, como punição por seus crimes, foram condenados a vagar eternamente pelos mares em um velho navio. Após séculos de tediosas viagens náuticas, os bandidos lançam sua nau contra recifes e monstros marinhos, na esperança de encontrarem uma morte definitiva, mas esta lhes é repetidamente negada por uma força maior, possivelmente divina. Como se todo esse tormento não bastasse, os piratas ainda se vêem obrigados a cuidar de uma criança náufraga.

A história é de autoria do escritor francês Pierre Mac Orlan e foi originalmente publicada nos anos 1920, na forma de um conto. A adaptação para os quadrinhos foi feita por outro francês, David B., pseudônimo de Pierre-François Beauchard, mais conhecido como autor da HQ autobiográfica Epiléptico (publicada no Brasil).

The Littlest Pirate King foi lançado nos EUA no final de 2010, pela editora Fantagraphics, com capa dura, páginas coloridas e preço meio salgado. Com menos de 50 páginas, proporciona uma leitura fácil e rápida. O enredo pode ser visto como uma reflexão sobre o destino – os piratas relutam em aceitar a existência a qual foram condenados e confrontam a ordem divina. Mas a narrativa nunca é óbvia, e pode ter várias interpretações.

A criança encontrada pelos piratas instigará o leitor a pensar na convivência entre seres aparentemente incompatíveis, e a última metade do livro pode ser uma metáfora do fim da infância, mas esta não é uma história com moral ou mensagem clara. Quem está acostumado com quadrinhos mais tradicionais poderá estranhar alguns trechos oníricos e o final abrupto e aberto.

Os belos desenhos de David B., feitos com traços grossos e tremidos, são elegantemente expressivos. Sombras espessas cobrem grande parte das páginas e realçam o tom mórbido da narrativa. As figuras desenhadas pelo artista são simples, mas o modo como são dispostas em cada quadro é cuidadoso e inventivo. David B. consegue colocar um grande número de personagens em um quadrinho de modo que todos pareçam necessários, no lugar certo e com uma expressão facial individual. Perspectivas incomuns são utilizadas para acentuar a dramaticidade de algumas cenas. As cores foram muito bem escolhidas e tornam as ilustrações mais divertidas.

Após criar HQs inspiradas por sonhos – publicadas na década de 1990, inéditas no Brasil – e histórias familiares, David B. se saiu muito bem com esta adaptação literária. Não é e nem pretende ser uma obra profunda e impactante como Epiléptico, mas mostra um artista maduro e talentoso, explorando a versatilidade de sua narrativa.

Autores: Pierre Mac Orlan e David B.

Editora: Fantagraphics Books

Ano de Edição: 2010

48 páginas

Nota: ★★★★☆ 

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