Enganado pela mulher que amava e traído por seu parceiro no crime, o bandido Parker não está nada feliz quando chega em Nova Iorque, em pleno verão de 1962. Com uma só ideia na cabeça, a de se vingar, nem que para isso tenha que atravessar o país de ponta a ponta atrás do que lhe foi roubado.”

Devir traz Parker – O Caçador, um romance gráfico da autoria de Darwin Cooke, baseado no livro de Richard Stark, o pseudônimo de Donald E. Westlake, um especialista em ficção criminal. A edição tem o selo da Biblioteca de Alice, que trará uma seleção de novelas gráficas, baseadas numa combinação de popularidade e qualidade. Iremos analisar a narrativa gráfica pelo gênero que Cooke homenageia, inclusive um pouco da vida do autor da obra literária e do próprio Darwyn Cooke, também apontaremos as adaptações já feitas da obra de Westlake com Parker e por fim, a análise do título da Devir.

6a00d8341bfb1653ef01bb084d9cba970dMulheres fatais, assassinatos, ‘caras’ durões, bem casca grossa, planos frustrados, vingança, redenção, medo, expiação, sexo, poder, traição, farsa, corrupção, chantagem, brigas, bares, contrabando, ambição, perseguições, tiros, mortes… Elementos, situações e personagens que nos direciona logo para um gênero literário, o policial, o noir, um rincão da ficção que, seja através de um filme ou nas páginas de um livro ou de uma revista em quadrinhos, consegue levantar questionamentos dos recantos mais obscuros do comportamento humano. Um realismo que se ampara por certos convencionalismos, arquétipos e cenários comuns que facilitam a narração do gênero em questão.

Colocando na balança sua popularidade e o incontestável valor de algumas das obras surgidas ao longo dos anos, o gênero foi considerado em âmbitos acadêmicos como um filho bastardo da literatura “séria”. Mas nomes como Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, precursores de diversos escritores; Raymond Chandler, Dashiell Hammett ou James M. Cain, importantes expoentes da tradição norte-americana; ou ainda os cineastas John Huston, Fritz Lang, Samuel Fuller e Alfred Hitchcock: que realizaram clássicos cinematográficos sem igual, abriram o caminho a novas gerações de uma forma a manter vivo o gênero. Dentre aqueles que mantiveram o nome, o prolífico Donald Westlake, sob o pseudônimo de Richard Stark, colaborou com o gênero, com a criação de um inesquecível personagem, Parker, que encantou uma geração de leitores, inclusive um jovem chamado Darwyn Cooke

O ADAPTADOR

mgid-uma-video-mtvO canadense Darwyn Cooke (1962) começou timidamente através da New Talent Showcase, titulo da DC que apresentava novos talentos a indústria dos quadrinhos. O ano era 1985 e Cooke não convenceu com seus desenhos, resignado partiu para o competitivo mundo da publicidade. Não tardou, valendo por sua paixão pela animação, abriu seu próprio estudo: o Brotherhood Animation Company que começou a chamar a atenção pelo seu desenho de produção. Logo, a Warner Bros. Animation lhe convidou para trabalhar com Bruce Timm nas produções das míticas Batman e Superman: The Animated Series, trabalhos aos quais levaram a dirigir a serie dos Homens de Preto (Men in Black), com Miguelanxo Prado e a realização do célebre Batman do Futuro (Batman Beyond).

Após o sucesso das animações que consolidou seu trabalho, durante os anos 1990, Cooke enfim, em 2000, retoma seu caminho aos quadrinhos, com a graphic novel: Batman: Ego, oferecendo uma versão particular da identidade dicotômica Bruce Wayne/Batman. Deste modo, o canadense que há quinze anos foi cercado de dúvidas, entra de com força no mercado. E veio X-Force, Wolverine, entre outros, mas sua Mulher-Gato, com a parceria com Ed Brubaker garantiu assumir Detective Comics (2001) e uma série regular com Selina Kyle (2002), firmando diferentes one-shot. Mas foi com a minissérie DC: The New Frontier (2004), um projeto ambicioso que garantiu os prêmios Eisner, Harvey e Shuster, e ainda uma adaptação animada, produzida pelo colega Bruce Timm. Já consolidado com uma estrela mainstream, participou da antologia Solo (2005), com autores como Paul PopeScott HamptonRichard CorbenTeddy Kristiansen, e sua liberdade de contar todo tipo de estórias curtas. Relança The Spirit em 2006 e colabora com Tim Sale com a minissérie Superman: Confidencial.

A última década foi sem dúvida muito importante para a carreira de Cooke, sua bibliografia lhe deu um status privilegiado que lhe permitiu retomar aos anos de juventude e planejar a possibilidade de retomar um projeto antigo, relacionado com um personagem sui generis

O AUTOR E SEU PERSONAGEM

yul3osqac2bjj0faeluqDurante seus 75 anos de vida, Donald Edwin Westlake (1933- 2008) engenhou mais de uma centena de livros, diversificando nos mais variados gêneros: faroeste, sci-fi, biografia, eróticos, etc., e com a característica de escrever com mais de treze pseudônimos, numa época que as editoras dos EUA evitavam publicar obras seguidas de um mesmo autor. Mas foi no gênero policial que seria mais lembrado,  com o seu Richard Stark, e a saga de livros protagonizados por Parker, um ladrão profissional sem escrúpulos, nada de nobreza no coração, rude, violento, contundente e capaz de qualquer coisa para obter êxito em seus golpes. Casinos, estádios de futebol, bancos, etc qualquer objetivo era acessível para este criminoso, que entre um plano e outro, se permitia aos enlaces carnais com sua Claire Carroll. O próprio Westlake definiu Parker como “um cara complicado e desagradável, sem remorsos, carregado de vingança. Todo o que um protagonista de um romance não deveria ser.”. Entretanto, Parker fascinou inúmeros leitores, o que levou o escritor escrever uma saga de 24 livros, publicados de 1962 a 2008 e foi pouco valorizado por nossas editoras.

AS ADAPTAÇÕES PARA O CINEMA

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Parker serviu de base a várias adaptações cinematográficas, sete no total: Made in the U.S.A. (1966), dirigido por Jean-Luc Godard, que irritou o criador por ser uma adaptação não autorizada e que convertia o protagonista em uma escritora; o francês Mise á sac (1967), de Alain Cavalier; Quadrilha em Pânico (The Split, 1968), de Gordon Flemyng, com Ernest Borgnine, Gene Hackman e Donald Sutherland; A Quadrilha (The Outfit, 1973) de John Flynn, protagonizada por Robert Duvall; Alugado para matar (Slayground,1984) de Terry Bedford, protagonizada por Peter Coyote, que seguiram com desigualdade, repercussão e ‘legalidade’ fora do que o escritor queria. Mas dois cineastas, John Boorman e Brian Helgeland pegaram O Caçador (The Hunter) – primeiro volume da saga de Parker- e conseguiram derivar as melhores adaptações: À queima-roupa (Point Blank; 1967), protagonizada por Lee Marvin, e O Troco (Payback, 1999), com Mel Gibson no papel principal. Dois filmes se confirmam como versões bem recomendáveis ao cânone de Westlake, além desses sete, ganhou em 2013 uma adaptação homônima estrelada pelo astro dos filmes de ação Jason Statham e dirigida por Taylor Hackford.

A NARRATIVA GRÁFICA

4972O projeto que Cooke teve que superar poucos obstáculos, pois o próprio Westlake teve a frente do mesmo. Segundo Scott Dunbier, editor da IDW Publishing, o responsável em convencer o escritor que Cooke pudesse desenvolver uma versão fidedigna e respeitosa com o material original, Donald aceitou após ter em suas mãos as primeiras páginas, autorizando a utilizarem o nome do seu protagonista. Era a primeira vez que Parker teria seu nome ligado realmente a uma adaptação, sendo que as demais adaptações relacionadas com a saga de Westlake, recorreram a mudanças mais ou menos dissimuladas, como Paula, Walker, Stone ou Porter.

Quem conhece o trabalho de Darwyn Cooke vai reconhecer que Parker: O caçador segue o valor estético que Cooke firmou nos últimos anos, desde Batman: Ego até DC: The New Frontier, influenciado estilisticamente por Timm, mas com o filtro de referencias adicionais não necessariamente do mundo dos quadrinhos, entre os quais se destacam Jack Kirby, Alex Toth e Will Eisner, como também Howard Hawks, John Ford, e John Woo. O resultado: uma mistura do forte componente clássico e do marcado estilo cartoon. Porém, ficou mais preocupado no aspecto estético de suas páginas, que descuidou no elemento caraterístico do meio: ser narrativo/sequencial.

5110Não sendo um relato original, Parker: o caçador levanta indagações sobre sua narrativa se existe tantos precedentes cinematográficos e literários. Em primeiro lugar, a originalidade da história adaptada e seu contexto histórico, podem não ser amparada numa ótica contemporânea. E é nesse ponto, que os quadrinhos vencem, por levar a imoralidade de Parker a extremos que não apareceriam na telona. Cooke homenageia a cada página Donald Westlake, demonstrando sua profunda admiração, o que garante às novas gerações um aporte clássico do gênero.

4931A multiplicidade de enfoques, planos, perspectivas e enquadramentos que Cooke recorre, podem parecer complicado para um leitor acostumado só com quadrinhos de banca, mas dá ao volume um tom artístico sem igual. Além disso, a variedade de recursos e os tons monocromáticos empregados, desde páginas com conversações longas a quadros com a ausência delas, podem ainda comprometer a leitura para olhos leigos a arte conceitual empregada, como já dizia Will Eisner.

Parker: o caçador traz uma multiplicidade de planos que aliada ao sentimento de urgência do personagem, com sua sede de vingança, caracterizam, desde as primeiras páginas, o trabalho de Cooker, efetiva, diferenciadora e atrativa. Uma graphic novel, que a Devir capricha, pelo material apresentado, em capa dura e papel cartonado. Sustem o talento de dois autores interessantes, cuja união seguiu um resultado sumamente gratificante. Narrativa Gráfica mais que recomendada, obra de uma maturidade de um artista que com este título é um divisor de águas em sua carreira profissional.

FONTES: Imdb, www.donaldwestlake.com, darwyncooke.blogspot.com, violentworldofparker.com, CBR, Comics Bulletin, IFanBoy e Comic Book Daily.

  • Salvador Camino

    bacana o artigo Cadorno