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“A Rainha Pirata”, um retrato de uma personagem única na História

Tratar do feminismo atual e do feminismo que soa como mantra em meio as notícias de abuso e de violência contra as mulheres é algo tão surreal que saber de uma mulher do século XVI, que cuidava da família e da casa ao mesmo tempo de seu trabalho como pirata, com sua inteligência, fez que muito marmanjo respeitasse, tão poderosa num ambiente tipicamente masculino é incrível. Não conhecia Gráinne O´Malley, uma verdadeira lenda na Irlanda, que era tudo isso e mais um pouco em pleno século dos manuais de confessionário.

As aventuras épicas da Rainha Pirata da Irlanda, são espetacularmente trazidas à vida nesta excelente novela gráfica de Gisela Pizatto e Bruno Büll. Foi publicada em 2013 na Irlanda pela editora Clo Mhaigh Eo, onde foi premiada no Prêmio Nacional de Literatura em Irlandês de melhor livro do ano, na categoria “Melhor Livro Ilustrado”. O projeto chegou no Catarse e conseguiu ser bem-sucedido no financiamento para sua publicação aqui no Brasil. Fui um dos apoiadores da campanha, e venho aqui contar um pouco desta belíssima narrativa gráfica.

Em irlandês Gráinne Mhaol, Gráinne O´Malley, tornou-se uma lenda para seu país, como também para as mulheres de todas idades. De sangue nobre, vinda de uma das baronias irlandesas, Grace pertence a uma família de homens com tradição marinheira, mas por ser mulher seu destino está selado em terra firme. Contrariando tudo e todos, ainda adolescente ela decide que sua vida é o mar e se traveste de grumete (aprendiz de marinheiro), conseguindo assim embarcar em um dos navios de seu pai. E é então que se inicia sua história de aventuras no oceano.

Grace não foi somente uma corsária, mas uma estrategista de mão cheia, tanto no mar, como na terra. Os ingleses estavam se impondo à época na Irlanda, e a capitã conseguiu com estratagemas atrapalhar política e militarmente a Coroa britânica. Casou-se duas vezes, de modo que conseguiu aumentar o número de propriedades sob seu comando e também sua influência. Mas acredito que muitos já se perguntaram, o que levaram dois brasileiros contar a história desta mulher e como conseguiram publicar primeiro lá fora?

O projeto já estava configurado na mente da historiadora Gisela Pizzatto, admiradora da cultura e história da Irlanda, que convidou o ilustrador Bruno Büll para participar da ideia. Com o concurso da Barba Negra se vislumbrou para a publicação, porém não tiveram êxito. Com uma amostra do material, a dupla mandou para diversas editoras estrangeiras. E a editora Clo Mhaigh Eo lá da Irlanda, que adotou o projeto e amparou o desenvolvimento dele com total liberdade. E por aqui, foi financiado no Catarse, numa edição pelo Studio Magenta, bem caprichada, impressa no formato 21×29,5 cm, com 96 páginas, toda colorida em papel Off Set LD 90g/m² e a capa cartonada.

Implacável e respeitada a história desta graphic novel não é apenas uma narrativa de pirataria, mas também traz um pouco sobre o que o destino nos prepara, pelos desígnios escolhidos. Os capítulos foram construídos baseados nas Parcas, as três deusas do destino, que fiavam a linha de cada um dos seres humanos. Nem Zeus contestava Cloto, Láquesis e Átropos, que dimensionam o título de cada capítulo, em alusão ao sentido místico do destino que A Rainha Pirata carrega, uma boa sacada dos autores.

O roteiro é bom, mas a história passa rápido demais, a narrativa poderia ter tido mais profundidade, em alguns momentos da vida da protagonista, como a vida e o cotidiano familiar, porém o custo para compor tudo isso deixaria a publicação muito mais cara. Mas a síntese que a autora constrói transmite ao leitor uma ideia de quem foi a senhora Grace, uma personagem a frente de seu tempo.

O projeto gráfico da edição é primoroso, os desenhos de Büll e as cores de Pizzato respeitam o cenário da época, com primor na arquitetura, mostrando toda a ambientação das ilhas britânicas em cores vivas em tinta aquarela, um objeto de arte, uma graphic novel totalmente artística.

A Rainha Pirata é uma obra que instiga, não por ser tão independente como a protagonista da narrativa, mas pela alternativa que o crowdfunding, o financiamento coletivo dá aos autores em relação às editoras que fecham as portas para projetos como esse. Cada vez mais fico maravilhado com o que encontro. Parabéns, Gizella e Bruno, fico no aguardo do próximo trabalho de vocês.

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Publicado por Cadorno Teles

Habitante das terras áridas dos vales, guerreiro aposentado que desgraçadamente foi jogado numa dimensão que ninguém acredita nele. Se tornou professor, e nos momentos livre aproveita para ler e levar livros pelo sertão. RPG, quadrinhos, literatura e cinema estão entre seus vícios, para esquecer ou mesmo lembrar de seu mundo originário.

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