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Quando a Quadrinhos na Cia lançou suas primeiras obras, Retalhos de Craig Thompson foi a obra que menos me chamou a atenção, mas acabei comprando devido às críticas positivas. Ainda não dando muito por ela, sentei em uma tarde vazia e comecei a ler as primeiras de suas 600 páginas; e no final de 2 horas o livro havia sido devorado.

A Companhia das Letras descrevera o livro como uma auto-biografia que conta história da transição de um rapaz pela puberdade, influenciado principalmente pela relação com uma menina especial. Sinceramente, essa é a sinopse mais fajuta que li nos últimos tempos. O livro é sim sobre um rapaz que amadurece com a vida, porém suas 600 páginas são capazes de nos mostrar uma história muito mais profunda, delineando calmamente diversos aspectos menores, como os conflitos religiosos, o distanciamento dele para com seus familiares e a perda de esperança de um amor fugaz.

Unindo uma narrativa calma com seu traço forte e idéias criativas, Thompson é capaz de produzir sensações visuais que ilustram perfeitamente as diversas sensações pelas quais ele passa quando criança e adolescente, produzindo peças visualmente belíssimas e bastante diferentes. Vemos o quanto aquela visão infantil, criativa e exagerada o segue ao longo de todo seu desenvolvimento, e de como as fortes sensações conseguem ser mostradas em toda sua intensidade, sejam elas relacionadas a seus medos, dúvidas, paixões ou tesão.

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Para mim, o assunto mais interessante sobre o qual Thompson teve se de expor foi sua relação com a religião, aspecto que afetou sua vida nos mais diversos âmbitos. Talvez por viver em uma pequena cidade americana, tudo a volta do protagonista enfatizava a religião, e ele enfoca especialmente seu convívio com ela dentro das instituições. Na escola todas as matérias parecem ter este como seu assunto principal, pressionando-os constantemente com a idéia do Paraíso. Em casa, os pais exerciam diversas formas de pressão sobre os filhos: seja a obrigatoriedade explícita de ter de comparecer à missa e ao acampamento cristão ou o desejo do infante de ser aceito e motivo de orgulho dos pais – fator que até mesmo durante a vida adulta de Thompson afeta-o.

É nesse meio que ele cresce: como uma criança excluída que desenvolve uma relação profunda e tortuosa com a religião, que se desenrola em grande parte baseada em um preceito de culpa e vergonha – sentimentos muito presentes ao longo do livro. Porém, o interessante do livro é o fato de podermos observar como os exageros e preconceitos religiosos vão transformando-se de agentes repressores a objetos do ridículo, o que não gera apenas situações interessantes de serem lidas como também que beiram o cômico. O melhor exemplo disto é a idéia de seguir a vida como artista, pois Thompson gosta de desenhar desde criança. No início do livro uma professora afirma para o menino que não é necessário que ele siga desenhando, pois Deus já desenhou tudo que havia para fazê-lo, e mais tarde um tentam convencê-lo de entrar para o seminário; e em ambas as vezes ele sente-se acuado. Ao final do quadrinho, porém, ele apenas ouve as afirmações sobre como funciona a faculdade de artes, sem deixar-se influenciar pelas reprovações.

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Gostaria também de abordar um dos tópicos mais importantes do livro: a relação entre o autor e uma mulher chamada Raina. Esse foi um aspecto do livro que mais me surpreendeu por um simples fato: eu detesto romances, o que foi possivelmente o motivo principal de minha inicial aversão a sinopse do livro. Mas Thompson consegue desenvolver uma história belíssima entre ele e o que seria seu primeiro amor.

Raina é uma personagem que vai desenvolvendo aos poucos, pois os leitores vão sendo apresentados aos diferentes aspectos de sua personalidade na mesma medida que Thompson o fez, observando uma relação que vai se moldando aos poucos. E este é um ótimo ponto no livro, pois o autor consegue transferir para o leitor todo o caminho pelo qual ele passou desde o momento em que ele conheceu Raina, até o termino da relação, passando por todos os diversos momentos que o fizeram se aproximar mais dela, as cartas, os presentes, as conversas, a masturbação, a viagem. Ademais, estas experiências narradas, que geraram o carinho entre os dois, mostram-se ao mesmo tempo reais e excepcionais, pois a intensidade das sensações de Thomson, assim como as de qualquer pessoa ao ter suas primeiras experiências amorosas, ganham um certo tom de sonho. Por outro lado, é exatamente essa realidade faz com que acordemos de manhã, trazendo um fim ao sonho, e o protagonista narra como foi levado a um fim de namoro abrupto e totalizante, assim como acontece com qualquer um.

A relação dele com Raina, porém, não se limita apenas a uma historinha de amor, ela ilustra o quanto uma pessoa é capaz de produzir mudanças e fazer com que outras cresçam, nesse caso vemos nitidamente o quanto essa paixão foi essencial na vida de Thompson, fazendo-o retomar seu desejo pelo desenho, fazendo-o se distanciar daquela pressão sufocante da religião, fazendo-o até mesmo reavaliar a relação dele com sua família.

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Assim, Retalhos conseguiu se provar para mim um quadrinho excepcional, tanto em relação a sua trama, que se desenvolve em um nível que vai além do superficial, quanto nas ilustrações, que são capazes de transmitir sensações muito intensas sem nem mesmo precisarem de cores.

Para aqueles que ficaram interessados, Retalhos está disponível em qualquer grande livraria ou pode ser comprado online pelo Submarino, e para os fãs da obra, lembro que Thompson virá para o Brasil durante a FIQ.

  • Cabei de ler e simplesmente foi uma das melhores obras de quadinhos que eu li nos últimos anos. A narrativa do Thompson é soberba e a arte dele acompanha bem cada momento e sentimento que ele pretende passar. Altamente recomendado!

  • Retalhos se encontra certamente no grupo dos melhores quadrinhos que eu já li. Excelente resenha di.

  • Retalhos para mim fala sobre amadurecimento acima de todos elementos abordados no livro (família, amor, religião, trabalho).

    Não vejo a história dele com Raina como algo assim diferente :/

  • Vitor

    RETALHOS foi o melhor livro que ja li de história em quadrinhos nota 10 parabens craig por ter feito esse livro

  • Herbert

    Sou leitor, nunca fui fã de quadrinhos em geral, mas digo que em meu primeiro livro que leio de Craig Thompson, viro fã. Retalhos que diferentemente de outros livros traçam o acontecimento real dos adolescentes, um jovem com problemas de socialização que cresce e se vê só, ate o aparecimento de Raina, que faz ele sair de plano questionando todos os aspectos ao seu redor, onde trata claramente a violência, relação familiar, adolescência, masturbação, sexo, amor e outros aspectos existentes onde o mocinho “Craig” diferente de todos os outros livros de autores diferentes e aspectos diferentes não fica com a garota”Raina” mas vive seu primeiro e inesquecível amor, traduzindo os romances dos dias de hoje, onde por muitas vezes não progridem.