Em 2014, um dos maiores personagens das HQs, Flash Gordon completava 80 anos de publicação. Apesar de sua importância para os quadrinhos, a glória no meio já passou, sendo sua presença no mesmo meramente testemunha. O bom é que o King Features Syndicate, proprietários do personagem, decidiu licenciar à Dynamite uma revitalização do personagem. Após uma minissérie, King’s Watch- Defensores da Terra, que trazia o herói com Mandrake e The Phantom, aparecem Dale Arden e Hans Zarkov numa aventura que redefinia a primeira incursão de Ming o Impiedoso contra o nosso planeta, que levou a uma série regular, escrita por Jeff Parker e Evan Shaner que está em seu oitavo número atualmente.

Mas a série de Parker e Shaner não estavam só. Mark Millar, consciente da data célebre, decidiu lançar outra história, não oficial mas que celebrasse, de algum modo, os 80 anos do herói e da qual iremos tratar nesta resenha. Starlight – O Retorno de Duke McQueen, que a Panini lançou recentemente, fruto da colaboração do escocês com o croata Goran Parlov, e com Ive Svorcina. Millar decidiu modificar um pouco para evitar problemas legais e trazer um protagonista não tão parecido com o libertador de Mongo. O escocês reivindicava o arquétipo do herói espacial que pertence Flash Gordon, juntamente com outros como Buck RogersDan DareJohn Carter e Diego Valor. Um redesenho do vilão, uma mudança na paleta de cores e Duke McQueen se apresentava na fileiras dos heróis do gênero.

Além da minissérie, o volume se completa com as capas variantes que realizaram desenhistas como o próprio Parlov, Pascual Ferry, Rob Liefeld e Cliff Chiang, que se somam com as capas oficiais de John CassadayBill SienkiewiczFrancesco FrancavillaTravis Charest e Tommy Lee Edwards. Belíssimas capas por sinal, com um elenco de ilustradores desse, vejam no final do artigo algumas delas.

Se Millar teve o cuidado de não parecer oportunismo em seu título, lembremos que Flash Gordon, por sua vez, deve a muitos personagens anteriores. A tira que Alex Raymond originalmente pensou em 1934 seria uma adaptação das aventuras marcianas de John Carter de Edgar Rice Burroughs. Não conseguindo os direitos de propriedade intelectual, Raymond se dedicou a desenvolver mudanças, introduzindo elementos de When Worlds Collide de Philip Wyle – que também influenciou a criação de outro herói icônico, o Superman – para assim surgir Flash Gordon. Além disso, a tarefa de adaptar John Carter originou outro herói sci-fi, Buck Rogers, que começou a ser publicada em 1929.

Para refletir, devemos lembrar que anos depois George Lucas perseguiu os direitos de Flash Gordon no início dos anos 70 e que, ao não conseguir alcançá-los, começou a trabalhar no que seria Star Wars.

Voltemos a tratar de Starlight, a ideia de Millar é sensível: da mesma maneira que as aventuras de Flash Gordon completavam 80 anos e que sua época gloriosa tinha desaparecido até 2014, seu personagem, Duke McQueen, é um senhor já de idade avançada que há décadas se aposentou de suas aventuras galácticas. Ante a necessidade e o sofrimento do mundo que já ajudou no passado, McQueen deverá voltar àquela vida apesar dos anos e os problemas de saúde. A premissa deriva de um Batman: The Dark Knight Returns de Frank Miller, mas com um tom menos visceral.

Inclusive podemos apreciar influência de animações como Os Incríveis ou Up! – Altas Aventuras, ou ainda O Gigante de Ferro. Duke, tendo todos os motivos, está longe de ser tão mal-humorado, quase psicótico Bruce Wayne, do trabalho que revolucionou o meio nos anos oitenta. Sua humanidade e heroísmo são genuínos, retoma seu papel de herói não para reviver velhas aventuras ou fugir de seus problemas que o atormentam mas para fazer o que é correto. Sua tristeza vital, suas tragédias e seu modo de enfrentá-los também o afastaram do herói perfeito arquetípico. E esse é o maior mérito de Millar em Starlight, construir um memorável e empático personagem. O primeiro capítulo, dedicado a apresentar Duke é magnífico apesar de pouca originalidade. A perda de sua mulher é sentida, como também a solidão que vive e os motivos de seus filhos para não prestarem a atenção devida a seu progenitor que os adora. Bem tocante. 

Infelizmente, o resto da narrativa segue um pouco falha. A missão em outro planeta, que deveria ser emocionante, mas cai na rotina e numa simples execução literária.  Sobre os vilões, os quais, Millar reserva seus diálogos habituais sempre acentuados e cortantes, já um clichê em seu Millarworld, como também acentua boas reflexões com os aliados que Duke conheceu décadas atrás. Por outro lado, temos o maravilhoso desenho de Goran Parlov, que usa do sintético estilo de Moebius, embelezado com as cores do grande Ive Svorcina para criar uma delícia em todos os sentidos. A narrativa ganha muito com a arte, compensando em muito com o visual das ilustrações.

Na realidade, Millar faz o que desempenha habitualmente. Não é nada novo, nada que proponha uma mudança sobre um conceito já conhecido, mas como um laboratório autoral ambienta em meio a homenagem a Flash Gordon o sonho da infância de ter encontrado seus heróis de seu mundo fantástico, como fez em Superior (ou Kick-Ass) de se tornar um super-herói, ou que você é um menino do bairro, mas seu tio é James Bond.

Não importa, Millar, com suas propostas de argumento, atraiu as fantasias inconcebíveis juvenis de fãs de uma maneira que levou o seu universo a maturidade. Usar a nostalgia e as ideias que muitos poderiam pensar quando fantasiaram sobre a criação de seus próprios quadrinhos, antes de caírem na vida real como um adulto. E Millar se deixa levar pelo “vácuo” desse sentimento para desenvolver suas obras e confiando na arte oferecida por seus colaboradores excepcionais. Com Starlight, leva esse estilo a um passo adiante. Para finalizar, tive uma gratíssima leitura, recomendo.