E com “Transmetropolitan – De Volta às Ruas” (148 págs., R$ 45) a Panini dá sequência a publicação de volumes de capa dura com boas histórias em quadrinhos adultas. Muitas delas (Preacher, por exemplo) já conhecidas do público brasileiro pois foram publicadas aqui de forma, na melhor das hipóteses, irregular e/ou incompleta.

Resta saber se a Panini conseguirá publicar cada uma dessas séries de forma completa. Ainda mais levando em conta duas coisas: 1) HQs adultas tradicionalmente vendem pouco; 2) a recente e polêmica revolução editorial da Panini em suas HQs de heróis é uma simples tática de cortar custos.

Mas voltemos ao volume De Volta às Ruas, que reedita as seis primeiras edições de Transmetropolitan, uma série mensal que durou 60 edições entre 1997 a 2002, criada pelo roteirista Warren Ellis e o artista Darick Robertson. A HQs acompanha as aventuras de Spider Jerusalém, um jornalista de um mundo futurista demente, escrevendo uma coluna de sucesso no jornal de uma cidade sem nome a qual odeia profundamente (irônico, considerando o quanto ele se ajusta perfeitamente ao lugar).

Cada história deste volume parece ter sido planejada para apresentar um aspecto do mundo insano em que Spider vive. A estrutura didática parece manjada, mas funciona – embora ainda não dê para saber em que direção a narrativa série vai caminhar e sua natureza episódica canse um pouco. Ademais, eu não sou fã do estilo de anatomia de Darick Robertson, mas gosto de como ele caracteriza o futuro inserindo detalhes nos cenários (cartazes, pichações, pessoas nas ruas, etc) de forma precisa, quase sem poluição visual.

Contudo, o que importa é a caracterização do protagonista. Spider Jerusalém é misantropo, fala e escreve de forma frenética, alterna mau-humor com senso de humor bizarro e se entope de drogas legais e ilegais. Enfim, é o tipo de “lenda do jornalismo” que todos nós já lemos a respeito algum dia. Ajuda saber que Spider foi inspirado no americano Hunter S. Thompson, pai do jornalismo gonzo (participativo, opinativo).

Em sua busca pela Verdade, Spider ataca (com palavras) os alvos fáceis desse tipo de ficção científica que exagera questões do mundo atual: autoridades autoritárias, líderes suspeitos de movimentos de reforma social, políticos, consumismo televisivo (minha história preferida do volume, assustadoramente crível), religiosos, etc.

Porém, não é o aspecto político da HQ que me interessou mais, mas a visão – romântica, e por isso pessoal – de Ellis do que deveria ser um grande escritor. Até pesquisei se Ellis já trabalhou como jornalista (aparentemente, não).

Afinal, veja os feitos de Spider: ele é bom de briga, aterroriza programas televisivos, e até humilha o Presidente dos EUA (tive que pesquisar para saber o que era – exatamente – um prolapso retal). E, no momento mais emocionante do livro, ele escreve na sua coluna até parar uma violenta repressão policial. Warren Ellis pode até ser um escritor cínico e derrotista, mas Spider Jerusalém é a coisa mais perto de um herói que ele poderia criar.