Dois casais, de gerações distintas, reúnem-se para um jantar na casa de um deles. Não se conhecem há muito tempo, logo, são territórios a serem tateados com cautela por cada casal. Esse é o mote da peça Até o final da noite”, com direção de Alexandre Mello e texto de Julia Spadaccini.

Tomamos, enquanto espectadores, a perspectiva do casal mais velho, que é quem acompanhamos logo no início do espetáculo. É a partir do olhar deles e de suas expectativas que visualizamos o casal que está para chegar. Eles têm o que se poderia considerar como um ‘casamento sólido’, com papeis bem delimitados (a esposa que ajeita a casa, o marido que lê o jornal). Além disso, o filho saiu recentemente de casa para trabalhar no Leste Europeu.

Foto: Patrícia Stagi
Foto: Patrícia Stagi

Angela Vieira, que interpreta a mãe, questiona-se se está sofrendo da síndrome do ninho vazio. Irão receber os novos amigos em minutos e tomamos contato com suas ansiedades em relação às visitas. A preocupação em não parecer tão desconectado de certa ideia de modernidade, encarnada no casal que está para chegar, é o que aflige a personagem de Angela. Como ficar em sintonia com esse casal? Como não parecer tão anacrônico? Que hábitos eles têm, quais as tendências, qual o gosto musical?

Além de Angela Vieira, completam o elenco Isio Ghelman, Letícia Cannavale e Rogério Garcia, todos muito bem em seus papeis. Isio Ghelman, particularmente, consegue arrancar boas risadas da plateia, com seu jeito irônico e irreverente diante das demandas e preocupações que cercam a noite. A princípio, ele não tem a mesma insegurança que sua esposa em aparentar algo que não é. A princípio.

Foto: Allan Reis
Foto: Allan Reis

A peça consegue trazer à tona a temática do conflito de geração e dos percalços dos relacionamentos breves ou longos. É como um espelho desse descompasso temporal tão bem marcado no momento em que vivemos (de tantas mudanças tecnológicas em uma rapidez desnorteante), usando de humor leve e ideias interessantes. Uma dessas ideias, que traduz um ótimo momento da peça, é quando os respectivos maridos ficam na sala, a sós, esperando que suas esposas adiantem a salada que será servida no jantar. Eles estão nitidamente constrangidos, buscando assunto, tentando interagir de forma harmoniosa, minimizando, quem sabe, as diferenças entre eles, e acabam enveredando para uma espécie de jogo que cria incertezas e desconforto.

O momento em que a visita chega e é recebida pelo casal mais velho é outro excelente momento do espetáculo, tornando hilário o embaraço que se estabelece.

Por outro lado, certas palavras escolhidas pelo texto teatral podem ter um efeito de falta de verossimilhança. “Causar espécie” é uma expressão pouco utilizada atualmente, sobretudo em diálogos informais. Ao ouvi-la na boca de um dos personagens, a expressão fica ecoando mais do que deve, não cumprindo a função talvez almejada de caracterizar ainda mais uma dada geração. Há algo de exageradamente artificial na escolha da expressão.

A cenografia de Beli Araújo merece destaque, conseguindo representar de forma despojada e criativa a casa de classe média do casal de meia-idade, com uma planta desenhada na parede e alguns móveis e objetos, que servem de ícones dos cômodos retratados, colados na parede.

A trilha sonora de Leandro Baumgratz é também interessante, mas a ressalva fica para o volume do som, que dificulta o entendimento de alguns diálogos. São poucas as cenas em que isso acontece, mas pode atrapalhar a compreensão do texto.

Tirando as restrições que não comprometem a harmonia da peça, temos uma ótima opção de distração que consegue conciliar o humor com as reflexões sobre os conflitos de gerações e os que acontecem dentro dos relacionamentos.