O documentário cênico Luis Antonio – Gabriela, criado pelo ator e diretor Nelson Baskerville, que o montou com base nas memórias de seu irmão transgênero, é incrível pela riqueza dramatúrgica que se desenrola no palco, onde a criatividade jorra sem limites e diversas linguagens são utilizadas concomitantemente, no intuito de esgotar os meios possíveis para a expressividade máxima de um drama que, ainda que singular, diz respeito a todos nós. O resultado que se apresenta em cena parece ser fruto de um conjunto de diretrizes somado ao improviso dos atores ao longo dos ensaios, como nos indica um dos vídeos de Nelson, projetados durante a montagem.

A história, que começa com o nascimento de Luis Antonio, em 1953, narra uma dura trajetória de alguém que não apenas está em busca de si mesmo, mas, para além disso, não abdica da luta diária, incessante, persistente, pela expressão mais genuína de si, doe a quem doer, incomode a quem incomodar, até sua morte, em 2006, em Bilbao, na Espanha, país em que vivera como Gabriela. Esta é a primeira temporada carioca, após sete temporadas em São Paulo, além de outras apresentações.

Marcos Felipe no papel-título emociona em diversos momentos e, especialmente, no monólogo próximo ao fim do espetáculo, em que fala sobre seus afetos e sobre a decisão de não os regular. É belíssimo o texto em que discorre, a seu modo, sobre as expressões variadas do amor, inclusive a sexual. Talvez este seja um dos momentos mais emocionantes da peça, em que Luis Antonio-Gabriela já está no fim da vida, vivendo as sequelas de algumas doenças e recebendo os cuidados de uma das irmãs, que o reencontra para dele cuidar. Além de Marcos Felipe, compõem o elenco Virginia Cavendish (atriz convidada especialmente para a temporada carioca), Sandra Modesto, Lucas Beda, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias, Pedro Augusto, Day Porto e o músico Gustavo Sarzi.

As reviravoltas na vida familiar do personagem-título, as reparações que acontecem ao longo da vida, a violência mais ou menos patente, a dificuldade de lidar com o diferente, as entregas, o drama pessoal do protagonista, tudo isso é acompanhado por vídeos de Nelson Baskerville, fotos da família e outros documentos, além de vinte e duas telas do artista plástico Thiago Hattner, encomendadas para uma das cenas do espetáculo. A trilha sonora original de Gustavo Sarzi é executada ao vivo pelos atores, que também operam a luz, de dentro do palco, conferindo dinâmica à montagem.

Enfim, este é um espetáculo brilhante, de tirar o fôlego e de emocionar do início ao fim. O Rio teve sorte em receber a temporada da peça, que já tem uma caminhada de êxito em São Paulo. Através do drama de Luis Antonio-Gabriela e sua família, o espetáculo dá visibilidade a uma temática urgente, que remete a diversas outras histórias parecidas, das quais ouvimos falar ao longe e sobre as quais precisamos falar e refletir mais de perto.

FICHA TÉCNICA

ARGUMENTO: Nelson Baskerville
TEXTO/RELATOS: Nelson Baskerville, Cristina Baskerville Ierardi, Doracy e Serginho
INTERVENÇÃO DRAMATÚRGICA: Verônica Gentilin
ELENCO / PERSONAGEM:
Marcos Felipe / Luis Antonio – Gabriela
Virginia Iglesias / Doracy
Virginia Cavendish / Maria Cristina
Lucas Beda / Pai e Serginho Cabeleleiro
Verônica Gentilin / Nelson Baskerville
Pedro Augusto / Técnico Performe
Day Porto / Cantora
Gustavo Sarzi / Musico
DIREÇÃO: Nelson Baskerville
DIRETORA ASSISTENTE: Ondina Castilho
ASSISTENTE DE DIREÇÃO: Camila Murano
DIREÇÃO MUSICAL, COMPOSIÇÃO E ARRANJO: Gustavo Sarzi
PREPARADOR VOCAL: Renato Spinosa
TRILHA SONORA: Nelson Baskerville
PREPARAÇÃO DE ATORES: Ondina Castilho
ILUMINAÇÃO: Marcos Felipe e Nelson Baskerville
CENÁRIO: Marcos Felipe e Nelson Baskerville
FIGURINOS: Camila Murano
VISAGISMO: Rapha Henry – Makeup Artist
VÍDEOS: Patrícia Alegre
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Sandra Modesto e Marcos Felipe
PRODUÇÃO GERAL: Cia Mungunzá de Teatro
REALIZAÇÃO: Cia Mungunzá de Teatro e SESC RIO
ASSESSORIA DE IMPRENSA: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany