O espetáculo de formas animadas Vidas Secas, que a companhia ítalo-brasileira Caravan Maschera Teatro traz para o Rio de Janeiro, não se propõe a ser a transposição literal para os palcos do clássico de Graciliano Ramos. Não espere, portanto, encontrar a história ali retratada, ipsis litteris. Em vez disso, o Vidas Secas da Caravan Maschera é uma inspiração dramatúrgica do texto de Graciliano, trabalhando os personagens da história de uma forma toda particular, singela e poética. E tem grande êxito nisso, construindo um espetáculo que prende do início ao fim, repleto de beleza e encanto.

A personagem Baleia, por exemplo, que antes de fazer parte do romance deu origem a um conto de nome igual, está lá desde o começo. Tem presença fundamental na peça, assim como no romance e no conto. Fabiano, a mulher de Fabiano e os dois filhos também estão todos presentes. Assim, ainda que o espetáculo não busque a tradução dramatúrgica do texto e sim, digamos, uma espécie de versão, é fiel ao seu mote, à atmosfera impregnada na linguagem literária (em que os personagens praticamente não têm vida interior e são secos entre si, tanto quanto é seco o contexto em que vivem) e às questões fundamentais que são evocadas por Graciliano. Estão ali a fome no sertão, a necessidade de deslocamento dos retirantes de seu lugar de origem, a aproximação entre o homem e o animal em condições de indignidade (fome e sede) e, enfim, o desejo pela mágica e pela beleza, que não deixa de existir mesmo quando necessidades mais básicas de sobrevivência não estão sendo saciadas a contento. Refiro-me ao momento em que a mulher almeja o par de sapatos altos: ela talvez os queira tanto quanto quer um copo de água fresca ou condições melhores de vida, e vai lutar por eles da mesma forma e empregando os mesmos recursos usados para lutar pela comida, pela água e por uma vida digna.

Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia Gonçalves criaram, portanto, oito bonecos inspirados nas pinturas de Cândido Portinari e em fotografias de Sebastião Salgado, e a expressividade dos bonecos e a perícia com que os manipulam faz parecer que há muito mais do que uma dupla criadora que dá vida a eles. Quando o espetáculo chega ao fim e a dupla agradece ao público, há o estranhamento colado à pergunta: mas cadê o resto da equipe? Não tem mais gente manipulando os bonecos?

E, de fato, é impressionante a expressividade de tais bonecos (criados também por Fernanda Paredes, além de Giorgia Goldoni) e a vida que há em seus olhos, além da harmonia em toda a sua movimentação. Parece que, à medida que são manipulados, suas expressões faciais se modificam, mesmo que expressando sempre dor e privação. A cenografia de Gianni Goldoni, o figurino assinado por Adelfa Bergonzini e a iluminação de Daiane Baumgartner ajudam a compor esse cenário de encanto, mistério e poesia.

Ficha técnica

Livre adaptação da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos
Elenco: Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia Gonçalves
Direção: Giorgia Goldoni e Leonardo Garcia Gonçalves
Cenografia: Gianni Goldoni
Figurino: Adelfa Bergonzini
Bonecos: Fernanda Paredes e Giorgia Goldoni
Iluminação: Daiane Baumgartner
Musicalidade: Luiz Maria e Leonardo Garcia
Produção local: Galharufa Produções Culturais
Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal
Fotos: Tamyris Zago