Dois personagens no palco reveem sua história de amor, e o fazem de uma maneira lúdica, leve e lançando mão, com inteligência, do recurso da metalinguagem. Acompanhamos, através das versões entrelaçadas de um e de outro (ora se contradizendo, ora se complementando, mas a maioria das vezes se ajustando) a forma como se conheceram, como se aproximaram, como conviveram e as mudanças que paulatinamente foram acontecendo no relacionamento, das mais sutis às mais evidentes, tudo isso permeado por uma trilha sonora delicadamente executada ao vivo sob a direção musical de Pedrinhu Junqueira.

Afeta-me agora ou desaparecerei com o tempo, escrito e dirigido por Julia Gorman, é um espetáculo poético, engraçado e versátil no uso de diferentes linguagens. Há, além da música, projeções de cenas pré-gravadas e outras que acontecem ao vivo.

O cenário, em tons pasteis e retratando um aconchegante apartamento com mesa, cama, sofá e bancada, permite que alguns espectadores assistam à peça de dentro dele, como se fossem amigos convidados para alguns encontros e uma festa que acontecerá no apartamento do casal. A interação de Julia Shimura e Vicente Coelho com o público contribui para que, por vezes, a peça pareça um encontro informal em que os amigos contam uns aos outros histórias de suas vidas, e é aí, com justa medida, que a metalinguagem aparece.

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Um exemplo é quando Julia Shimura pede à equipe o efeito de fumaça para um número que executará com Vicente, ou quando pedem aos espectadores que estão no cenário para formarem uma fila para retratarem fielmente o momento em que os personagens se conhecem. Vicente Coelho está impagável no momento do sarau no apartamento. Por outro lado, é também hilário o momento em que Julia Shimura incorpora a feminista engajada e faz um discurso vigoroso contra a mídia tradicional, perdendo um pouco as estribeiras até se dar conta do exagero e se recolher, constrangida.

O espetáculo, bem dividido em capítulos, foi ganhador do Prêmio Yan Michalski de melhor direção, em 2014, tendo recebido ainda indicação para Melhor Direção de Arte, assinada por Uirá Clemente, e Melhor Espetáculo.

De fato, as indicações e o prêmio são merecidos: a peça é muito bem acabada e a dramaturgia realça os pontos fortes da história, que apesar de não partir de uma temática original, centra-se no que é universal e sempre instigante, sempre premente: o relacionamento afetivo e a convivência íntima entre duas pessoas.

Ficha técnica

Direção: Julia Gorman
Assistência de direção: Bruno Marcos
Pesquisa de Linguagem: Cia Afirma de Teatro
Dramaturgia colaborativa: Julia Gorman (organizadora)
Supervisão de Dramaturgia: Rafael Souza-Ribeiro
Elenco: Julia Shimura e Vicente Coelho
Iluminação: Lívia Ataíde
Direção de Arte: Uirá Clemente
Produção: Débora Paganni e Rubi Schumacher
Direção Musical: Pedrinhu Junqueira.
Trilha sonora original: Danilo Timm, Julia Gorman, Pedrinhu Junqueira e Julia Shimura.
Músicos: Pedrinhu Junqueira, Thaiana Halfed, Antonio Escobar, Gabriel Ballesté e Julia Gorman.
Direção de vídeos e câmera ao vivo: Isabella Raposo
Projeções: Heloísa Duran
Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal

Serviço

Peça Afeta-me agora ou desaparecerei com o tempo
Duração: 1h10min.
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro de Arena
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô e VLT: Estação Carioca)
Informações: (21) 3980-3815
Data: 1º a 18 de dezembro de 2016 (quinta-feira a domingo)
Horário: 19h
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.
Lotação: 171 lugares (+ 4 para cadeirantes)
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 10h às 20h
Classificação: 12 anos
Acesso para pessoas com deficiência