Um homem cuja residência é o alto de uma árvore, no bairro da Glória, e cujo nome é Bóson, referente ao bóson de Higgs, a chamada partícula de Deus. É com esse personagem terno, envolto em uma sabedoria que não faz alarde, que se inicia o ótimo e despretensioso espetáculo O rei da Glória. A peça entrelaça personagens e histórias ligados pela cidade e por estranhas notícias de rádio que compõem o cenário urbano no qual emergem. Cada personagem tece um ponto de vista particular sobre as coisas da vida e os habitantes do bairro da Glória a partir de sua inserção no mundo, na maioria das vezes opaca.

Há, por exemplo, o pastor, personagem interessantíssimo que pauta seu sermão nas palavras dicionarizadas, em sua origem, sua raiz etimológica e nos desdobramentos que podem ter para diferentes pessoas. Na mão, tem um dicionário, mais relevante do que a Bíblia, dado que, para ele, aquele que não é capaz de dizer a palavra não é filho de Deus. Assim, sem medo ou hesitação, condenando o politicamente correto, defende que os surdos e os mudos são seres inacabados. Trata-se, quase, de um fetiche da palavra (tanto quanto há o fetiche da mercadoria), que, para o pastor, torna-se a origem e o centro de tudo.

Há também o “vendedor de alegrias”, Rico Star, rodeado pelas inúmeras bugigangas que nada mais são do que um pretexto para oferecer produtos menos lícitos aos seus clientes e que, como se estivesse situado em um ponto privilegiado de observação, põe-se a costurar as histórias dos demais personagens e seus modos de subjetivação.

Quem cria e dá corpo e voz a esses personagens é Anderson Cunha. Junto com Guilherme Miranda, assina também a direção, além de ser o autor do texto. Anderson consegue transitar entre as diferentes entonações que marcam cada um dos personagens: desde a mais terna e doce de Bóson, que aprecia os pássaros e gosta de palmito, até o malandro vendedor de alegrias, passando pelo indignado e retórico pastor, sem contar o MC – EMC ao Quadrado – que distribui um pequeno folheto de poesia e o cineasta que se relaciona problematicamente com uma mulher sinestésica e todas as dificuldades que aí se originam.

Mas, além de excelente atuação, o texto não fica atrás e detém grande originalidade ao construir personagens urbanos que, a partir de suas vivências nada comuns, colocam-se indagações sobre a vida e as formas, mais ou menos legitimadas, de se inserir nos espaços urbanos. Suas indagações são densas, porém nada cansativas, e as perguntas que colocam causam reverberação no espectador. Rico Star, por exemplo, é um dos que fala sua inserção/não-inserção no espaço público, ao trazer a questão de sua invisibilidade social, que é quebrada unicamente pelo cheiro de seu corpo, após dias e dias sem tomar banho. Ele o faz de propósito, cultivando um odor incômodo, repulsivo, com o único intuito de ver a expressão das senhoras ao cruzar por ele na rua, constatando que a aversão dessas madames é um sinal de que o reconhecem. Nisso remete a um paciente do psicanalista Thomas Ogden, que discute um caso clínico em que o analisando cultiva o próprio cheiro como forma de proteção e existência, como forma, sobretudo, de contato social. No caso de Rico Star, é exatamente (e, quiçá, exclusivamente) pelo olfato que passa a ter existência. O trânsito entre visibilidade e invisibilidade requer estranhos subterfúgios.

Já o cenário é uma joia à parte. Assinado por Ronald Teixeira (que também assina a direção de arte) e Guilherme Reis, o ambiente por eles criado cerca os diferentes espaços por onde circulam essas curiosas figuras de objetos variados que se espalham, sem perder a harmonia, pelo chão. O preenchimento que tais objetos conferem ao cenário (alguns deles também pendurados, remetendo ao mundo do personagem Bóson, que mora em uma árvore) evoca a ideia de um mundo pleno de riquezas, com suas pequenas belezas escondidas, com múltiplos usos possíveis, mesmo que ninguém o consiga perceber de imediato.

A área do chão de onde sai o pastor é preenchida por páginas (de Bíblia ou de Dicionário?) que compõem o pequeno palco onde ele inicia sua raivosa pregação. A iluminação, de Paulo César Medeiros, acentua o tom cobre de toda a composição (cenário, figurinos, objetos) conferindo aconchego a esses refúgios urbanos ao mesmo tempo em que esmaece as presenças humanas, dando forma à invisibilidade que o espetáculo busca retratar. É preciso ter atenção para encontrar o valor de pessoas e objetos, pois tudo pode se camuflar. Há uma promessa contida nesse cenário, que aponta para descobertas possíveis. O melhor de tudo é que ele de fato cumpre o que promete.

Enfim, nada melhor do que lançar mãos das palavras do autor dessa pequena obra-prima conforme lemos no programa da peça: “aqui os invisíveis ganham voz”. A leveza e genialidade do texto, dos personagens, das indagações por eles trazidas bem que merecia novas temporadas pelos palcos da cidade.

FICHA TÉCNICA

Texto e atuação: Anderson Cunha
Direção:  Guilherme Miranda e Anderson Cunha
Direção de arte:  Ronald Teixeira
Cenografia e Figurinos:  Ronald Teixeira e Guilherme Reis
Iluminação:  Paulo César Medeiros
Direção de movimento:  Clarice Silva
Fonoaudióloga: Luisa Catoira
Trilha Sonora:  Guilherme Miranda e Anderson Cunha
Assistência de direção: Renata Benicá
Direção de Produção:  Andreia Fernandes e Lya Baptista
Programação Visual:  Silvio Cunha e Rodrigo Micheli
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna
Fotografia:  Rodrigo Castro
Mídias Sociais:  Rafael Teixeira
Vozes em off: Julia Shaeffer, Márcio Machado, Guilherme Miranda, Renata Benicá, Adriano Pellegrino e Thaine Amaral
Coordenador Técnico/ Operação: Moisés Farias
Realização:  Cavalo Marinho Produções Artísticas Ltda.