Se eu fosse Sylvia P., peça em cartaz no Teatro Cândido Mendes, é um exemplo de um espetáculo simples (no sentido de sua produção) e extremamente sofisticado. Três atores em cena – Alessandra Gelio, que também é responsável pela idealização e pela dramaturgia, além de assinar em conjunto a direção, Léo Rosa e Téia Kane – e um músico (Fellipe Mesquita), que acompanha o espetáculo com sua guitarra pontuando as emoções dramatizadas, um aquário ao fundo e a iluminação são os elementos objetivos que, usados com lirismo e inteligência, tornam a peça primorosa.

Apesar de ser uma história pesada (a de Sylvia Plath, que traz o drama do suicídio, que se segue à infidelidade, à violência psicológica e carrega uma tônica de culpabilização), há momentos ótimos de humor ao longo de todo o espetáculo. O texto mescla vivências reais e autobiográficas dos atores com os fatos vividos pelos personagens ligados a Sylvia, reconhecida sobretudo por sua obra poética, e que, aos trinta anos de idade, cometeu suicídio colocando a cabeça em um forno a gás.

É interessante e muito bem elaborado o constante jogo de vaivém que a direção costura entre as histórias particulares dos atores e a biografia dos personagens a que a peça faz referência (Sylvia Plath, seu marido e poeta Ted Hughes e a amante dele). Cynthia Reis e Alessandra Gelio, que assinam a direção, fazem esse difícil trabalho de ida e volta sem se perderem ou tornarem a peça confusa, apesar de a dinâmica requisitar a atenção constante do espectador. Assim, vamos acompanhando os paralelos traçados e que giram em torno de temáticas tais como: a relação com a escrita e com a poesia, as lembranças da infância, os signos e a astrologia, a relação com a espiritualidade e o misticismo, a figura do pai, a dura experiência precoce da morte de alguém querido, vivências oníricas densas, a paixão e o ciúme.

Não há nada gratuito na peça e, enquanto a cena principal se desenrola, algo acontece no fundo do palco em que um dos três atores protagoniza um detalhe importante referente àquilo que está acontecendo no foco principal, sempre de modo metafórico ou simbólico, explorando luzes, cores e formas. É assim que o aquário que é disposto ao fundo adquire a função fundamental de se tornar um recurso para valorizar os elementos sublinhados na dramaturgia, sobretudo a cor vermelha.

O momento, para citar um breve exemplo, em que um tecido vermelho é abandonado delicadamente dentro do aquário, a forma que ele vai adquirindo, lentamente, enquanto submerge na água, a iluminação que sobre ele incide e, finalmente, mas não menos importante, o tempo que todos aguardam enquanto esse movimento acontece dentro d’água é um detalhe crucial que, como outros ao longo da peça, confere beleza ao espetáculo. Mas existem vários outros que se enumerados retirarão o valor de sua surpresa para os espectadores.

A peça fica em cartaz apenas até 23 de fevereiro, mas vale torcer para que ganhe novas temporadas.

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