Levar aos palcos uma peça que adapta um romance de Clarice Lispector (ou qualquer texto seu) é empreitada muito desafiadora. Não se trata tão somente (mas até) de um texto introspectivo, nada linear, poético sem ser sentimental, com um vaivém psicológico e literário sui generis. Não se trata apenas disso, mas, sobretudo, de ser um romance de ninguém menos que Clarice Lispector.

Um livro da Clarice não se lê como se lê qualquer outro tipo de narrativa longa, do início ao fim, de um só fôlego e sem paradas, sem um vaivém também da leitura, sem recomeços diversos. O texto de Clarice é extremamente perturbador. E é por isso que pode ser interessante parar, voltar, se afastar, se aproximar, reler, começar do início novamente, repetir tudo, talvez finalizar o livro, talvez não, tudo isso sem pressa. Isso é o texto de Clarice Lispector, essa é a leitura que ele possibilita.

O espetáculo Perto do Coração Selvagem, com direção e dramaturgia de Delson Antunes, monta pela primeira vez esse primeiro livro da autora, que ganhou temporada nos palcos do Teatro Café Pequeno, no Leblon, em uma adaptação que acerta em alguns aspectos e poderia fazer melhor em outros.

O primeiro aspecto diz respeito exatamente à difícil transposição de linguagens, quando se leva aos palcos um texto que foi escrito originalmente para ser um romance. Em se tratando de Clarice, como dito anteriormente, isso fica ainda mais difícil, afinal, a leitura é densa, a introspecção dá o tom do texto e os aspectos filosóficos embutidos na narrativa, e que acompanham os questionamentos da personagem principal, Joana, tornam tal transposição ainda mais delicada. Setenta minutos de peça acabaram se tornando um tempo apertado para tanto conteúdo verbal, para o nível de densidade que o texto traz.

A peça que teve a coragem de levá-lo aos palcos trouxe-me uma indagação: para montar um romance de Clarice é necessário contemplá-lo integralmente (ou em grande parte), ou será que uma montagem mais fiel seria, paradoxalmente, aquela que valorizasse uma parte da obra, parte essa que se remeteria ao todo sem cansar os espectadores, que, diferente de quando estão com o livro na mão, podem com ele se relacionar fazendo todos aqueles movimentos de pausa, releitura e afastamento que enumerei no primeiro parágrafo? Quem dita o ritmo e o tempo da relação com o livro é o leitor. No teatro, o espectador deve seguir a dramaturgia, e pode-se correr o risco de ficar sempre atrás, nunca alcançá-la e terminar ofegante ao final.

Novamente, é importante frisar que esse ritmo de paradas e pausas, na literatura de Clarice, diz respeito ao seu diferencial: há que se colocá-la em outro quadrante, e essa é exatamente a sua força. Talvez por isso também – cerca de setenta minutos de peça para muitas vozes, muito conteúdo verbal, muito texto e uma profundida inequívoca – é que a velocidade com que o texto é dito pelo elenco tenha também prejudicado sua absorção. O texto de Clarice se enriquece de silêncios. É movido a intervalos e sucessivas releituras. Se dito rapidamente, sem tempo para a reflexão, torna-se vazio ou, perigo maior, excessivo.

A dramaturgia opta por dividir Joana em diversas emanações da personagem, encarnadas, no palco, pelo elenco formado por Andreia Burle, Camila Rosa Lins, Daniela Salles Abreu, Júlia Cotta, Júlia Horta, Marianna Lobo, Michele Ribeiro, Monique Houat e Renata Caldas. O início da peça é belíssimo, e a direção de movimento de Sueli Guerra faz bonito, em conjunto com a acertadíssima iluminação assinada por Aurélio de Simoni e a trilha original de Pedro Veríssimo. Tudo é harmonia nesses primeiros momentos, quando as atrizes movimentam-se pelo palco, afastando-se e se aglutinando naquilo que será uma só pulsação – referência inconteste a uma temática de Clarice Lispector ao longo de seus textos.

Junto a isso, a cenografia de José Dias, que opta por tecidos e transparências muito bem deslocados pelas atrizes de acordo com as diferentes instâncias psíquicas e temporais, dado que o texto vai e volta no tempo e na realidade psíquica (para lançar mão de um termo da psicanálise). Tratam-se de boas ideias e recursos brilhantes que souberam casar todos esses aspectos. A iluminação favorece os planos diferenciados de vivências subjetivas, o que permite a concretização, como recurso cênico, do que a autora propõe em sua narrativa. E, claro, entorna beleza no quadro que se desenrola sobre o palco.

No entanto, em alguns momentos, há muita gente em cena. Da metade para o fim da peça, fica a impressão de que todas as Joanas e outras personagens estão o tempo inteiro em um espaço exíguo, o que pode ter se tornado um exagero. A harmonia e a beleza dos momentos iniciais da peça se ausentam. Talvez, menos Joanas e menos ecos e repetições possam ser um caminho mais límpido para que o texto excepcional da autora não fique ofuscado por excesso de informação. Completam o elenco Pedro Gosende, Ronan de Andrade Horta e o ator convidado Rodrigo Candelot, que interpreta Otavio.

Também não posso deixar de apontar que talvez um preparo maior e mais amadurecimento do elenco seria interessante para trabalhar texto tão difícil. O tom dado a ele, o ritmo com que é dito, as expressões faciais às vezes mais risonhas do que a cena pedia acabaram por transformar o tema de Perto do Coração Selvagem em algo que ele não é: assunto de mulher.

Uma das qualidades que considero inauditas na obra de Clarice é o fato de tratar de temáticas universais, valendo-se de uma forma excepcional para tanto, em que as questões abordadas fazem parelha simétrica com a qualidade literária da escrita. Não se trata de literatura de gênero, se é que existe tal categoria. A questão dos personagens da obra de Clarice é com o tempo – o que vai acontecer agora agora agora? – e com a vida das galinhas-que-não-sabem-que-vão morrer e com o que acontece depois da felicidade. Ou com “o it da coisa”, expressão que aparece em outro romance espetacular, Água Viva.

Suas personagens são difíceis de situar e de caracterizar, assim como é quase impossível dizer sobre o que é o romance A paixão segundo GH ou Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Dizer sobre o que Clarice Lispector escreve é correr o risco de reduzi-la e torná-la outra coisa. Em Água Viva, novamente, há um trecho clássico que traduz perfeitamente essa ideia e que cito de cabeça, com os possíveis equívocos da memória: “Ouve. Ouve meu silêncio. O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa”.

O que dizemos sobre Clarice Lispector nunca é Clarice Lispector. Clarice Lispector é outra coisa. Por isso, a necessidade de um tempo para assimilar o texto, digeri-lo, apropriar-se dele sem medo de seu impacto, sem medo de sua inteligibilidade, e o dever de não atropelá-lo, não ter pressa em dizê-lo inteirinho, saber povoá-lo de silêncios cuja função é também dar contundência àquilo que acabou de ser dito. A música, tanto quanto o texto de Clarice, é feita de silêncios. Sem eles, não há música, não há texto, não há Perto do Coração Selvagem.

Ficha Técnica:

Texto: Clarice Lispector
Direção e dramaturgia: Delson Antunes
Assistente de direção: Victor Lósso

Elenco: Andreia Burle, Camila Rosa Lins, Daniela Salles Abreu, Júlia Cotta, Júlia Horta, Marianna Lobo, Michele Ribeiro, Monique Houat, Renata Caldas, Rodrigo Candelot, Ronan de Andrade Horta e Pedro Gosende;

Cenografia: José Dias
Figurinos: Joana Bueno
Iluminação: Aurélio de Simoni
Trilha original: Pedro Veríssimo
Direção de movimento: Sueli Guerra
Direção de vídeo: Marcelo Gibson
Preparação vocal: Luisa Catoira
Direção de produção: Rafael Fleury
Assistente de Produção e contrarregra: Luis Felipe Cardoso

Operação de som e projeção: Quequé Peixoto
Operação de luz: Pedro Thimoteo
Cenotécnico: Pará Produções
Programação visual e fotografia: Thiago Ristow

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