Foto: Caique Cunha

“Um sol de muito tempo”, dirigido por Cadu Cinelli, é um dos espetáculos que compõe a “Ocupação Marcelino Freire – Faca amassada entre os dentes”, em cartaz no Teatro Sesc Copacabana, que traz, além de duas outras peças de teatro, um acervo de leitura com disponibilização de livros do autor, uma oficina literária acontecendo durante três dias e um sarau que contará com a participação de Chacal e Mano Melo, além do próprio Marcelino. O espetáculo, com concepção e atuação de Wilson Belém, traz seis contos que giram em torno do envelhecimento, da nostalgia e da passagem do tempo. São eles: A última sessão, Belinha, A acompanhante, Hora do banho, Vovô Valério vai voar e Troca de Alianças; todos falados integralmente.

Os diferentes contos são costurados em um cenário de iluminação intimista, também assinado por Cadu Cinelli, e que conta com poucos objetos, sendo de uma delicadeza ímpar. A unidade que liga as cenas diz respeito à lembrança e a certo anacronismo que remete a um tempo cada vez mais difícil de resgatar. Esse é o caso do primeiro conto, emblemático desse anacronismo, em que o personagem resolve morar em três cinemas, intercalando entre eles sua existência e construindo um ambiente familiar em cada um, conferindo intimidade a esse espaço público. Essa decisão sui generis de morar em três cinemas é algo impensável nos dias de hoje, em que as salas de exibição são pequenas, os lugares são marcados e quase não existem mais cinemas de rua.

Entretanto, a viabilidade da escolha desse local de moradia era perfeitamente possível há cerca de vinte anos, despertando certa saudade de tempos que não estão tão distantes mas parecem pertencer a uma outra vida. Os outros contos trazem igualmente a temática da nostalgia e da perda paulatina de funções, possibilidades e caminhos conforme se toma idade. Wilson Belém tem êxito em imprimir grande força a esses personagens, depositando forte carga de emoção a cada um deles.

A trilha sonora e as intervenções musicais e rítmicas do ator conferem lirismo ao texto irretocável do autor pernambucano, e há um detalhe que merece atenção: Wilson, entre cada cena, troca os sapatos, indicando a singularidade dos diferentes personagens levados ao palco, já que, de resto, pouca coisa muda no cenário e no figurino. Mas os sapatos e o cuidado em trocá-los toda vez que o personagem e a história mudam os torna veículos da subjetividade muito própria a cada personagem e a cada acervo de memórias recuperadas.

Para quem já aprecia a verve rítmica de Marcelino Freire, “Um sol de muito tempo” é um espetáculo imperdível. Para os que não conhecem, é uma excelente oportunidade de conhecer esse texto de grande qualidade literária conjugado à bela dramaturgia que lhe confere vida nos palcos.

FICHA TÉCNICA

Texto: Marcelino Freire (contos dos livros AMAR É CRIME, ANGU DE SANGUE, BALÉRALÉ e RASIF)

Concepção e atuação: Wilson Belém

Direção: Cadú Cinelli

Cenografia e Iluminação: Cadú Cinelli

Cenotécnico: Handerson Oliveira

Figurinos: Florencia Santangelo

Costureiro: Caio Braga

Preparação vocal: Marianna Lima

Arranjo para violão: Gloria Calvente

Composição musical para o conto “TROCA DE ALIANÇAS”: Henrique Machado

Design gráfico: Evee Ávila

Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti

Midia social: Rafael Teixeira

Produção Executiva: Thamires Trianon

Produção: Inácio e Belém Produções Artísticas e 9 Meses Produções Artísticas.