A divulgação das primeiras imagens da nova formação dos Trapalhões causou furor na internet. Já havia sido anunciado que haveria uma espécie de reboot do quarteto humorístico que marcou toda uma geração entre o final dos anos 70 e início dos 90. A Globo irá estrear o programa em julho no Viva (canal fechado especializado em reprises dos programas da emissora) e em setembro na grade da matriz na TV aberta. Não faltaram comentários sobre a nova escalação, a maioria em tom de desconfiança em relação à nova produção.

Essa formação na verdade é um sexteto, liderado pelos dois trapalhões ainda vivos Didi (Renato Aragão) e Dedé (Dedé Santana). Eles passam o bastão para os quatro integrantes da nova geração Didico (Lucas Veloso), Dedeco (Bruno Gissoni), Mussa (Mumuzinho) e Zaca (Gui Santana). Mas o que podemos esperar dessa versão século XXI de “Os Trapalhões”?

A ideia de reviver o clássico programa dominical não é de hoje. Renato ainda tentou seguir adiante com a atração depois da morte de Zacarias (em 1990) e Mussum (em 1994). Mas a verdade é que os Trapalhões são como os Beatles. A ausência de um prejudica a alquimia. Imagine de dois. Depois de desavenças com Dedé, Renato ainda criou “A Turma do Didi”, que até obteve um certo sucesso. Contudo, os altos índices de audiência da reprise do programa antigo durante a emana ao meio-dia chamou atenção para o fato de que as pessoas sentiam muita falta do quarteto. Isso ficou mais evidente com os quadros que viralizaram no Youtube (como o da música “Papai eu quero me casar” e outros, sobretudo os protagonizados por Mussum).

Na comemoração do cinquentenário de criação do personagem, Renato montou um musical inspirado no que é considerado o melhor filme para o cinema do quarteto, “Os Saltimbancos Trapalhões”, que ganhou também uma versão cinematográfica. Na ocasião aproveitou para fazer o anúncio do novo programa. Ao que tudo indica, Os Trapalhões deverá seguir a linha do bem sucedido remake de Escolinha do Professor Raimundo, também exibida no Viva. Certamente será muito mais um tributo do que uma tentativa de tomar o lugar do original. Até porque seria um baita tiro no pé. E aquele humor que fazia os espectadores cair na gargalhada há 30 anos hoje causaria problemas. Não faltavam piadas com gays, negros, anões e outras minorias. Era um período pré-politicamente correto.

“A gente buscou resgatar o humor dos Trapalhões dos anos 1970 e 80 com uma roupagem técnica de luz, cenário e figurino padrão anos 2017, mas preservando o deboche e a crítica de antes, sem, com isso, deixar nada soar ofensivo. O politicamente incorreto aqui é a incorreção política de uma criança”, disse o diretor geral Fred Mariynk ao site Omelete.

Um detalhe interessante é que a nova versão do Mussum será vivida por um também sambista, Mumuzinho (cogitou-se o filho do humorista para o papel). Pode-se perceber que a caracterização dos trapalhões falecidos é a que está mais próxima do original. Lucas Veloso e Bruno Gissoni lembram muito vagamente seus correspondentes. Vamos aguardar as atuações. Os coadjuvantes Tião e Sargento Pincel também estarão de volta interpretados por Nego do Borel e Ernani Morais respectivamente.

Apesar do pessimismo em torno desse reboot, “Os Trapalhões” pode surpreender se de fato for respeitoso com o legado de Didi, Dedé Mussum e Zacarias, como foi o caso da nova Escolinha. Polêmicas envolvendo o “Dr. Renato” à parte, ele merece encerrar a carreira com uma bela despedida, à altura da alegria que proporcionou por tantos anos.