Há anos que as animações deixaram de ser apenas “coisa de criança”. A maioria dos desenhos animados não-educativos, de curta ou longa-metragem, contém elementos que só os adultos entendem, embora também agradem às crianças. Um ótimo exemplo disso é a série de animação original da Netflix Saúdem Todos o Rei Julien”.

Não seria de se espantar se um dia os executivos da Netflix confessassem que o público-alvo da produção são os jovens que eram crianças quando o primeiro filme da franquia “Madagascar” estreou, em 2005.

Os millenials que tinham entre 7 e 12 anos em 2005 são hoje os jovens que estão prestes a mudar o mundo. Enquanto zapeiam as centenas de títulos disponíveis no serviço de streaming, um misto de curiosidade e nostalgia os invade quando eles reconhecem o lêmure de calda anelada que “se remexe muito”. Quando eles dão uma chance à atração, se surpreendem com a profundidade e importância dos temas tratados. Bem, pelo menos foi isso que aconteceu comigo.

Embora não haja conformação sobre isso, é bem provável que a série seja um prequel de Madagascar. O rei Julien XIII acabou de ser coroado, precisa proteger seu reino de predadores e lidar com os compromissos reais, mas na verdade ele quer apenas se divertir. Felizmente, o inexperiente rei tem ao seu lado o conselheiro Maurice, o bajulador obcecado Mort (ou Mork) e Clover, nova personagem que é responsável pela segurança do reino.

A maturidade dessa nova atração é mostrada nas críticas sociais, devidamente adaptadas para a realidade da selva. Os episódios já trataram do poder alienador da televisão, do abuso de autoridade, da vaidade excessiva, do vício em fast-food, das mães controladoras que habitam o mundo dos concursos infantis de talento e da maneira como alguns distorcem o conteúdo de um livro para conseguir dominar as massas – em um episódio em que o caso da Bíblia é metaforizado por um livro de boas maneiras. Além disso, “Saúdem Todos o Rei Julien” já provou, em 2015, que construir um muro para impedir a entrada de forasteiros em seu território é uma ideia fadada ao desastre.

Zoando duas modas em um só frame: os cinquenta tons do rei Julien – um livro de colorir

Seja no nome do episódio ou na trama, é possível encontrar referências a diversos filmes famosos, como “O Fantasma da Ópera”, “Rocky”, “Sob o Domínio do Mal”, “Minha Bela Dama” e “A História sem Fim”. Entre os seriados mencionados ou homenageados, podemos encontrar “CSI” e até “Orange is the New Black”, também da Netflix.

Além do mais, a tradução e adaptação para o português são geniais, inserindo diversas gírias nos diálogos e aumentando o humor. É uma série aparentemente despretensiosa, e definitivamente não é voltada para o público infantil. Deixe a nostalgia falar mais alto da próxima vez que você entrar na Netflix, e se surpreenda com a sagacidade de “Saúdem Todos o Rei Julien”.

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Letícia Magalhães é estudante universitária e tem dois livros publicados. Desde cedo mostrou interesse pela escrita, ganhado cinco vezes consecutivas o concurso de poesia de sua escola, tendo seus trabalhos publicados em antologia. É também ganhadora do concurso da Câmara Municipal de Poços de Caldas, edição 2010. Atualmente mantém o blog Crítica Retrô, sobre cinema clássico, e escreve para os sites Leia Literatura, Filmes e Games, Os Cinéfilos e Antes que Ordinárias.