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Em busca da beleza

Fotos Raquel Gandra

Era uma das noites mais frias do ano, mas muita gente saiu de casa naquele 10 de junho para ver o show de lançamento de MM3, terceiro disco do Metá Metá, grupo de São Paulo capitaneado por Kiko Dinucci (guitarra e voz), Juçara Marçal (voz) e Thiago França (metais). O público parecia ansioso. Dias antes, havia derrubado o servidor de internet que hospedava o álbum novo, tentando baixá-lo. Depois do poderoso Metal Metal, de 2012, todos estavam em busca da nova safra de canções de uma das principais bandas independentes do país.

E o que se viu no Circo Voador, Rio de Janeiro, naquela noite foi a coesão e o vigor de músicos experimentados e cada vez mais entrosados. À frente de hologramas que incitavam à desobediência ao governo ilegítimo, o MM habilmente entrelaçou músicas já conhecidas com canções do álbum novo, acostumando os ouvidos de um público interessado, que, no frio da noite carioca, se aquecia no calor gerado pelo movimento das rodas de pogo que brotavam na platéia a cada refrão exaltado.

Energética e cadenciada, o MM é um projeto musical que pega uma vertente da canção brasileira, de contornos afro, e a tenciona com o punk, sem muitas conciliações. Há também ressonâncias de freejazz, conjugadas à sonoridade de uma certa cena musical de São Paulo, que inclui nomes como Passo Torto, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e outros. O resultado dessa torção é um trabalho insubmisso, difícil de delimitar com uma definição redutora. No entanto, “afro” e “punk” são duas boas pistas a serem seguidas pra entender, com alguma profundidade, a original proposta estética da banda e os contornos musicais e poéticos que seu material sonoro carrega, capaz de instalar no Circo uma atmosfera ao mesmo tempo tribal e cosmopolita, festiva e combativa.

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Marcado por um forte acento afro-brasileiro, o violão originário de Kiko Dinucci é largamente inspirado em lundus, jongos, modas de viola e, especialmente, no samba, gênero com o qual o compositor afirma romper frequentemente, desconsiderando formulações aprisionadoras. A mão direita de Baden é a referência inevitável aqui. Na transposição para a guitarra, Dinucci cria uma assinatura ao mesmo tempo negra e roqueira. Na composição, Candeia e Geraldo Filme abrem as portas de uma longa tradição.
Há também a inclinação (afro)religiosa, que dialoga com os desdobramentos culturais da diáspora africana: heranças de Angola, Moçambique e Congo (país que mais “enviou” escravizados para São Paulo). Como a cultura iorubá e o candomblé. Em “Oya”, por exemplo, o Metá Metá faz um elogio à divindade dos ventos e rainha dos raios. Pogando no refrão com ânimo guerreiro, o público ativa-se em movimento. Já em “Man Feriman”, cantiga de candomblé para Oxum, orixá feminino que representa a água doce dos rios e cachoeiras, o sopro de Thiago França explode num solo de sax que o leva à exaustão. Com muita disposição, ele parece oferecer toda sua força criativa e destreza técnica em reverência à divindade exaltada.

No disco novo, há outra cantiga de candomblé, “Oba Koso”, que, no show, exige a atenção da platéia para sua textura ritualística. Saudando agora o Rei Koso, que cumprimenta seus filhos como um guerreiro, o Metá Metá oferece à majestade um instigante diálogo entre as costuras melódicas de Dinucci e França, nesta que é certamente umas melhores faixas de MM3. Parte dessa musicalidade inspiradamente iorubá está em cima da variação da blue note, como se vê em “Rainha das cabeças”, do disco anterior, na qual um riff com sotaque blues prepara o terreno para o momento da intervenção superior do batera Sérgio Machado, que parece se elevar do fundo do palco para afirmar seu papel central na polifonia rítmica da banda. Sem perder a pulsação, determinada pelo baixo hipnótico de Marcelo Cabral , “Osanyin”, música para o orixá das folhas que curam, acalma depois de tanta intensidade.

Em MM3, o Metá Metá apresenta também uma africanidade mais árabe, da África islâmica, da costa Norte, com escalas que remetem às sonoridades desérticas, do Marrocos, onde eles estiveram em 2015 para show no festival Mawazine, e do Mali, terra de Ali Farka Touré, Salif Keita e Tinariuen. “Imagem do amor”, “Mano Légua” e “Angolana” são exemplos bem acabados deste rico fluxo continental.

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Á frente da banda, está a elegante Juçara Marçal, que fornece a poderosa identidade vocal do MM com protagonismo e precisão. Juçara é uma das vozes femininas mais destacas da cena brasileira, tendo lançado “Encarnado”, trabalho solo super elogiado, e participado dos discos de Criolo, e do Goma Laca, projeto de Letieres Leite em que temas do candomblé, capoeira, jongos, maracatus, emboladas e choros das décadas de 1920 a 1950 são reiventados. Também familiarizada com sonoridades afro-brasileiras, Juçara Marçal é grande admiradora do trabalho de Itamar Assumpção (de quem, no show, o MM toca “Tristeza não”). Inspirada por ele, a cantora costura, com delicadeza e ferocidade, palavra e melodia, revelando, assim, os múltiplos afetos da história narrada na canção. No Circo, mais uma vez, a cantora recebeu, como de costume, um coro que entoou seu nome em uníssono.

No sopro, Thiago França traz a força melódica e rítmica de fraseados jazzisticos e experimentalismos. Sua africanidade remete a uma história de forte presença de metais em gêneros como o afro-beat nigeriano (o MM tem inclusive um EP gravado, “Alakorô, em parceria com Tony Allen, criador do ritmo imortalizado pelo “black president” Fela), ritmos latinos, o ethiojazz de Mulato Astatke e as brass bands de Nova Orleans. Seu trabalho no Metá Metá estabelece essa conversa com o Atlântico Negro, evocando o sax frenético de Coltrane nas “Africa Sessions”, o trumpete anárquico de Ornete Coleman no meio dos 60s ou as camadas do Miles no “Bitches Brew”, nos 70s. Com ímpeto coltraneano, França é um frequentador de limites em sua música, sempre em busca daquela nota forte o suficiente para levar seu solo ao precipício ou daquela constância potente a serviço do mantra circular. Em “Cobra rasteira”, num momento valsa, o público desliza na pista, dançando, mobilizado pelos fraseados serpenteados de sua flauta.

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O mais interessante de tudo isso é a forma como esse universo é atravessado pela temperatura punk, de onde brotam reminescências de Minutemen e das Mercenárias (“Me perco nesse tempo”, composição de Edgar Scandura tocada no show). Este vetor dá um direcionamento singular a toda este universo musical, revestindo o trabalho da banda de originalidade, organicidade e agressividade. Como se o MM combinasse todo este panteão afro-atlântico com Baden, Itamar e Douglas Germano, e ainda o temperasse com Fugazi. Em “Três amigos”, “Angouleme” e “Corpo vão”, do MM3, esse clima punk étnico encontra boas formas de se desenvolver. Nos momentos de desconstrução, como em “Logun”, a ambiência noise abre espaço até para uma onda meio grindcore, à la Napalm Death.
Transitando por estas possibilidades, o MM sabe ser às vezes caos, às vezes ordem. Entusiasta das curvas, a banda respeita com categoria a dinâmica entre volumes e ênfases, ataques e silêncios (como em “Totô”). As brechas atmosféricas lisérgicas, entrecortadas pelas intervenções da voz, sabem cadenciar-se na hora exata, para reentregar o comando da canção à narrativa melódica do riff. Essa negociação permanente entre seus membros é um dos grandes trunfos do Metá Metá. A fluída interferência de cada integrante (“metá” significa “três” em dialeto iorubá) forja sua identidade.

Destas duas tradições musicais empoderadas que evoca, o MM herda também a disposição para o combate. Talvez por isso seja tão frequente em sua obra a temática da guerra, como na dançante “São Jorge”, ou em “Obá Iná” (de Douglas Germano), na qual a música abre caminho para um tempo de justiça sem sujeição. Como um trovão, o arranjo elétrico de Obá Iná é capaz de gerar um verdadeiro acontecimento, em que a arte produz momentos repletos de sentidos e rebeldias, do qua se sai eletrizado. Uma arte que sorri em vez de se curvar. Ouve-se o ataque de uma música que não está separada do que pode, e não chegou até ali para simplesmente relaxar ou divertir. Mas para tencionar o arco, e se irmanar com a própria vida, ao convocar para uma vitalidade sem a qual a luta torna-se menos poética. Como diz Itamar Assunção, trata-se de “cantar como quem resiste” e “resistir como quem deseja”. Assim, num levante vibrante, impulsionado por tantas vozes nascidas do amor e da fúria, o público dança, num baile surpreendente, em que paira no ar uma alegria séria e espontânea. E o Metá Metá segue insubordinado, sendo, sempre, em busca da beleza.

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