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Resenhando Elric – O trono de Rubi

Elric, o imperador albino de Melniboné, criado por inglês Michael Moorcock, retorna para o mundo dos quadrinhos em uma adaptação espetacular feita por Julien Blondel e um grupo de artistas liderados por Didier Poli. Publicado pela Mythos, em seu selo Gold Edition, uma fantasia épica que traz um dos personagens mais carismáticos do gênero que foi elogiada do próprio criador, que descreveu como a adaptação mais fiel ao espírito original do seu trabalho.
Resenhando Elric - O trono de Rubi | Críticas | Revista Ambrosia
Criado durante os anos 1960 por Moorcock como uma contrapartida para a fantasia literária que surgiu após o sucesso de O Senhor dos Anéis. A intenção era recuperar um estilo de fantasia parecido com o gênero espada e feitiçaria que surgiu nos anos 1930 e tem em Conan seu maior expoente, embora as influências mais citadas pelo autor são Poul Anderson e Bertolt Brecht.
Elric é um anti-herói com uma história trágica, duplamente amaldiçoado por sua condição albino fisicamente fraco e por ter sido o meio escolhido pelo destino para destruir Melniboné, sua pátria e o reino que dominava o mundo por longos 10.000 anos. Ao longo dos anos apareceu em diversos contos e romances, mas suas aventuras foram reunidas em seis volumes publicados em 1977. O presente álbum adapta parte do primeiro desses livros, e a adaptação completa ocupará quatro volumes, originalmente publicados pela Glénart, editora francesa e por aqui pela Generale, que já publicou dois volumes.
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Neste volume, veremos o nascimento de Elric em um Melniboné decadente, até sua vida adulta, uma narrativa que se desenrola em meio ao sentimento de sua prima e amante, Cymoril, e as intrigas de seu primo Yyrkoon, que pretende tirá-lo do trono acusando-o de fraqueza e de levar o Império à decadência em face da ascensão dos reinos habitados por humanos. Assim, Yyrkoon traça um plano para se livrar de Elric e o leva a enfrentar com a frota imperial uma horda de bárbaros dos Jovens Reinos. Aproveitando-se da confusão da luta, Yyrkoon joga Elric no mar e o considera morto. Mas o destino tem grandes planos para o imperador, e sua vida é salva, retornando para Melnibone onde ele é confrontado com o usurpador em uma luta que vai acabar com o sequestro de Cymoril .
Elric tem uma longa jornada no mundo dos quadrinhos. Sua primeira aparição data de 1972, nas páginas de Conan, e a mais famosa é a interpretação que P. Craig Russell fez do personagem em várias séries que foram publicadas nos selos FirstEpic e Topps. A última das adaptações foi a de 2011 pela BOOM! Studios e que no Brasil foi publicado pela Abril. Elric – O trono de rubi destaca-se dos demais pela fidelidade ao material original e por ter recebido o reconhecimento do próprio Moorcock como a melhor adaptação que tem feito de seu personagem.
 
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Julien Blondel capturou bem o ar decadente da sociedade de Melniboné, apropriadamente refletida nas páginas desta narrativa gráfica. A grande contribuição desta versão em comparação com as anteriores é precisamente tornar visíveis, os aspectos sangrentos e cruéis dos Melniboneans, independentemente de sutilezas e mostrando os atos depravados de uma sociedade condenada à destruição, onde os seres humanos são tratados como meros animais e onde recorrem a pactos com demônios para derrotar seus inimigos.
Além desse toque mórbido que permeia toda a história, Blondel faz um bom trabalho adaptando o material original focando especialmente nos momentos de mais ação e intriga do enredo e oferecendo apenas alguns traços da complexidade interna de um personagem tão interessante quanto Elric. Esperamos que nos próximos volumes, o escritor explore mais as complexas motivações de Elric e a tragédia de sua existência.
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A arte é particularmente cuidadosa tanto em seus acabamentos quanto no trabalho de desenvolver os personagens e cenários. Didier Poli imaginou a Ilha do Dragão, o Império de Melniboné que reflita os tons escuro e sombrio do declínio sofrido pelo império, com muitos detalhes orgânicos e torcidas que mostram bastante graficamente a relação de Melniboneans com os Senhores do Caos.
Na seção sobre o design dos personagens, Poli desenvolveu uma caracterização entre a estética sadomasoquista e os zenobitas Hellraiser, com uma profusão de roupas de couro preto, correntes e escarificações. O trabalho preciso de Poli é perfeitamente complementado pela arte-final de Robin Recht, que confere ao resultado uma grande força expressiva e uma grande profundidade de plano. O projeto artístico é completado com a coloração de Jean Bastide que opta por uma paleta de tons suaves, onde o vermelho dos olhos de Elric e o abundante sangue que salpica toda a história se destacam.
A edição brasileira deste trabalho está a cargo da Mythos Editora, um editorial que está trazendo bons materiais para o público brasileiro. Nesta edição caprichada, capa dura em formato europeu de 24 x 32 cm, com tradução de Octávio Aragão e Helcio de Carvalho, cuidadosa pois o texto original desmanda da segunda pessoa e das mesóclises.
A apresentação e o trabalho de edição são brilhantemente atendidos, seguindo o original e o volume inclui ainda um prólogo do próprio Michael Moorcock, um prefácio de Alan Moore, uma seção de extras onde você pode ver esboços dos artistas e parte do processo criativo de algumas páginas. Vamos esperar que a jornada deste malfadado ícone da literatura fantástica continue e que a editora traga os demais volumes desta interessante revisão de um já clássico do gênero fantasia.

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Publicação Cadorno Teles