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Roma (2018) é um filme quieto que mostra Cuarón dominando sua arte

Roma é um filme intimista e autobiográfico que chega aos cinemas e ao streaming já como um favorito ao Oscar

Um chão de ladrilhos em cima do qual passam os créditos. Conforme a água se espalha pelo chão, ele reflete o céu, e vemos um avião cruzando a imensidão. Dali a pouco surge a espuma do sabão. Quem lava o piso é uma mulher de longos cabelos negros e rosto com traços indígenas. Ela é Cleo (Yalitza Aparicio) e, assim como as crianças daquela casa, nós aprenderemos a amá-la.
Cleo é empregada de uma casa onde vive o casal Antonio (Fernando Grediaga) e Sofía (Marina de Tavira), a avó Teresa (Verónica García), e quatro crianças, três meninos e uma menina: Antonio, Paco, Pepe e Sofía. Entre suas muitas tarefas estão preparar as refeições, acordar as crianças, limpar a casa e segurar o cachorro Borras para que ele não fuja quando abrem o portão. Cleo tem a ajuda de outra empregada, Adela (Nancy García García).
Um dia, Antonio, o pai, parte para uma viagem a Quebec, para tristeza, até desespero, de sua esposa. Na mesma época, Cleo descobre estar grávida. Ela conta sua suspeita para o cara com quem está saindo, Fermín (Jorge Antonio Guerrero), enquanto eles veem um filme de comédia no cinema. Fermín se mostra feliz, mas diz que vai ao banheiro no meio do filme e nunca mais volta. O pai da família também não tem a intenção de voltar.
Roma (2018) é um filme quieto que mostra Cuarón dominando sua arte | Críticas | Revista Ambrosia
Alfonso Cuarón acumula as funções de diretor, roteirista, editor, diretor de fotografia e produtor. Como roteirista e diretor, ele se baseou em suas memórias sobre sua empregada Libo, a quem o filme é dedicado, para criar Roma. Como diretor de fotografia, ele escolhe utilizar ousados, excelentes e precisos movimentos de câmera para focalizar a casa toda conforme Cleo vai apagando as luzes, totalizando uma tomada de 360 graus. Tecnicamente, o filme é perfeito, com destaque para o som – as noções de perspectiva, perto e longe são muito bem demonstradas pelo som – e para a fotografia em preto e branco – das mesmas cores de que são feitas as memórias.
Há muitos momentos simbólicos de tormenta: a parada que vem na rua enquanto Antonio, o pai, vai embora na direção oposta. O terremoto que acontece enquanto Cleo está olhando os bebês nas incubadoras. A fazenda cheia de animais empalhados onde a família passa o Ano Novo. A caneca quebrada por Cleo no brinde de Ano Novo. A manifestação estudantil que acontece enquanto Cleo compra o berço – com uma grande surpresa: quando um estudante entra desesperado na loja, pois está sendo perseguido, logo entram seus perseguidores, apontando armas para os clientes. Quem aponta uma arma para Cleo é justamente Fermín.
E, em meio a tanta tormenta, Cleo permanece calma. Com os modos de caipira ladina, se mostra desconfortável com as perguntas de praxe de uma médica sobre sua vida sexual. O momento de maior emoção na atuação de Yalitza Aparicio é justamente o clímax do filme, no parto da personagem. De resto, “calmo” e “quieto” são dois bons adjetivos para Roma.
Entretanto, na vida, nem sempre é bom ser “calmo” e “quieto”. Cleo parece não ter agência em relação à sua própria vida – ela apenas segue, sem lutar contra as adversidades, sem dizer o que quer, aceitando as migalhas que lhe dão pelo caminho. E, quase sempre, o amor que a família lhe dá não passa de migalhas. Por mais que ela crie as crianças como se fossem dela, elas não são. Por mais que dona Sofía se solidarize com ela, não existe amor ou sororidade entre elas. É uma visão romantizada de uma relação entre patroa e empregada, uma relação de poder problemática por natureza. Cuarón romantiza muitas vezes o abuso, e tudo seria diferente se Roma fosse dirigido por uma mulher.
Roma (2018) é um filme quieto que mostra Cuarón dominando sua arte | Críticas | Revista Ambrosia
O avião da sequência inicial volta a aparecer quando Cleo procura Fermín em seu treinamento de artes marciais, e também no frame final. Cuarón disse que, por ter gravado ao ar livre, foi inevitável incluir alguns dos aviões que sempre sobrevoavam os céus de Roma, o bairro da Cidade do México onde acontece toda a história. Prefiro acreditar que os aviões são mais do que coadjuvantes acidentais: são símbolos de jornadas – e Cleo vive uma jornada, mesmo que quase parada no espaço, mas não no tempo. E nós vivemos esta jornada junto com ela – e terminamos o filme mais íntimos de Alfonso Cuarón.
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Publicação Letícia Magalhães