Em comemoração especial ao Halloween e ao Dia de Finados eu vou comentar neste artigo sobre uma temática apropriada: medo e horror.

Não vou me ater aqui à descrição de como se conceitua as diferenciações de cada um, não é este o meu propósito, portanto vou recomendar a você, leitor que queira  aprofundar-se mais nesta diferenciação de conceitos, que aproveite o Olhares & Observações desta semana que o Felipe Veloso publicou. Está muito elucidativo e, como sempre, bem redigido.

Em primeiro momento entendamos que a visão de vida, morte e religiosidade no Japão permite que se veja o mundo sob um aspecto curioso. É plenamente crível, aos japoneses, que a vida após a morte e a reencarnação, de um modo geral exista e se dê de formas variadas.

Buda
Buda

Oficialmente budista e xintoísta, o Japão se vê como uma nação modernizada tecnologicamente porém com muitos indícios de superstições. Quando há uma morte, é esperado que a família do falecido cuide do cadáver por pelo menos um dia inteiro, em um velório caseiro, para que a alma do mesmo possa reconhecer cada um dos seus entes e receber as despedidas. Mas em alguns casos, dizem alguns, o espírito do falecido percebe algo de incomum ou inacabado e resolve ficar para cuidar desses assuntos. Isso pode se dar na forma de um fantasma ou de um animal de estimação que aparece subitamente e passa a ser cuidado pela família.

Explicar isto foi necessário para que possamos olhar mais afundo alguns dos cults mais conceituados da literatura, cinema, anime e manga  japonês. Analisando bem, podemos ver que a maioria dos contos de horror no Japão, são de fantasmas em busca de vingança ou do cumprimento de algum outro propósito deixado inacabado, onde alguém é atormentado com situações inexplicáveis e, nas versões originais japonesas, nem tudo é explicado ou resolvido no final.

O motivo dessa ausência de resolução se deve a um apelo cultural simples: japoneses não gostam de nada que seja direto ou muito claro, pois isto tira a capacidade do público de imaginar por conta própria os detalhes que ficaram faltando.

De fato, é mais terrível para a mente de um japonês imaginar o que pode ter acontecido no final do que ver a cena em sí. A imaginação humana em todo o seu potencial é o maior laboratório para o desenvolver do horror.

Mudando um pouco o tom, para algo mais leve, pensemos no que pode nos causar medo, que ao contrário do horror, produz-se naturalmente no ser humano. Nós nascemos com dois tipos básicos de medo, que seguem conosco por toda a vida: o medo de sons e o medo de cair. Qualquer outro é adquirido de acordo com nossas experiências de vida.

Em geral, japoneses têm um medo muito grande de fracassar na vida e da vergonha que a acompanha. É difícil para nós pensar que por questões onde um erro ocorra venha-se a cometer suicídio, quando tudo o que se perdeu, poderia ser reconquistado com esforço. Estranho de se dizer também dessa dualidade que eles crêem tão naturalmente a cerca da vida e da morte. Notamos isso nas expressões ” Este Mundo” para referir-se ao mundo dos vivos  e “Aquele Mundo” para refererir-se ao mundo dos mortos, utilizadas com frequência no Japão. Ambas originadas do raciocínio simples em que se define a vida como uma moeda de dois lados, em um momento você está em um lado, no outro momento vira-se para o outro, como um fenômeno natural. E de fato o é.

Convido você que leu até aqui a acompanhar a próxima edição do Olhos Puxados, pois falarei mais do mito de vida e morte.

Dewa mata ne!