Quando o cinema compreende a dimensão do silêncio, torna-se uma experiência. E nem precisa ser um Kieslowski (trilogia das cores) para isso. Um Lugar Silencioso é todo essa compreensão. E também essa dimensão. Além de um entretenimento de invejável competência. Por mais Michael Bay (!) figurando na produção, o êxito incontestável do filme chama-se John Krasinski, ator marcado por trabalhos humorísticos, sobretudo The Office, aqui na função de diretor e roteirista (e o seu terceiro e incontestável melhor filme), sendo absolutamente bem sucedido nas duas funções.

A trama que poderia ser encaixada no termo “terror pós-apocalíptico” acompanha uma família – o próprio Krasinski é o patriarca e a sempre excepcional Emily Blunt (casada com o diretor/ator fora do set), sua esposa, além de filhos ainda crianças – tentando sobreviver num futuro no qual a Terra foi invadida por seres extraterrestres. Pouco sabemos sobre essas criaturas, apenas que elas são cegas e se guiam apenas pela audição, que é muito bem desenvolvida. Então, para sobreviver, os humanos devem evitar qualquer tipo de barulho ou ruído.

É nesse contexto um tanto obscuro, que a família vai tentando sobreviver no interior dos EUA. O roteiro do ator/diretor, junto com Bryan Woods e Scott Beck, sabe que o verdadeiro terror é construindo por camadas de suspense. E oferece muitas possibilidades dentro de seu próprio paradigma do silêncio. É impressionante como é habilidoso ao usar cada membro dessa família para potencializar a história de acordo com a tensão que estabelece com suas ligações. Inclusive parte daí o arco dramático mais claro e que se revelará decisivo no fim, o da filha surda, Millicent Simmonds (atriz também surda e muito expressiva).

Krasinski direciona o emocional do espectador com esperteza dramática, mas através de muitas nuances técnicas, como a fotografia espetacular de Charlotte Bruus Christensen (fotógrafa do thriller A Garota no Trem) que trabalha as angulações para ampliar ou mimetizar o horror com imagens até assustadoras, mas bem bonitas, assim como a edição de som – procure um cinema com som de boa qualidade – que arroja o desenho sonoro para um verdadeiro desenho dramático.

O bom uso dessas expertises fez com que tudo funcionasse no filme, especialmente na maneira bem sucedida como a angústia nivela a relação da história com o espectador. O tempo inteiro. Um Lugar Silencioso compreende a dimensão do silêncio e do cinema, e já se transforma num dos grandes filmes do ano.

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