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FICA 2018 – Animações e arca de imagens se destacaram no 1º dia da Mostra Competitiva

A Mostra Competitiva do Festival Internacional de Cinema e Vídeo ambiental (FICA) começou ontem (dia 06/06) com um cardápio bastante variado. Curtas e longas abordavam temas relacionados à questão ambiental e desenvolvimento sustentável. Na primeira sessão, duas animações chamaram a atenção do público: Pet Man e O Malabarista.

A primeira é uma produção iraniana de 2017. Dirigida por Marzieh Abrarpaydar, a animação mostra a alucinação de um vendedor de animais que se vê diminuto e engaiolado enquanto é observado por animais. Ao fugir, se depara com um mundo em que os humanos estão submetidos aos animais, seja como bichos de estimação ou usados em trabalhos de carga. A temática não é nova, mas o traço marcante, uso de formas e sombras que remetem ao expressionismo alemão chamam bastante a atenção.

Pet Man

O minimalismo e a singeleza de O malabarista (imagem de capa) conquistaram os espectadores. A produção local (de Goiânia) é um documentário que se utiliza de animação para contar o cotidiano dos malabaristas de rua. Eles são representados pela figura de um boneco de rosto pintado que realiza performances em sinais e dentro de ônibus. É interessante como o diretor e roteirista Iuri Moreno reproduz expressões naturais de personagens do cotidiano e usa uma geometria que lembra bastante artistas como Escher para retratar o ambiente urbano opressor, em contraste com a cor e a alegria dos artistas de rua. Depoimentos de malabaristas reais são usados como narração.

O curta mexicano Outubro Outra Vez foi o queridinho do público. A diretora e roteirista  Sofia Auza conta as lembranças de uma história de amor de um rapaz com uma moça engajada na causa ambiental. A história é mostrada em retrospectiva não linear em montagem de videoclipe e rende momentos hilários com os embates de uma pessoa com forte consciência de desenvolvimento sustentável e um cidadão comum acostumado a práticas como desperdício.

O espanhol O Homem de Água Doce já enviesa por um tema tocante. Em uma cidade californiana, uma menina surda-muda desafia o avô, um bombeiro reformado turrão, a criar um sistema inusitado par devolver a água a um rio seco.

Experiência sensorial e “arca de imagens”

O desmatamento, a extinção de espécies, instalação de indústrias e outras intervenções estão “matando” o som da floresta. Alguns sons já não existem mais, e isso chega até a desorientar espécies animais. O longa italiano Coros do Anoitecer acompanhamos o trabalho do eco acústico David Monacchi e seu projeto de captar os sons da natureza em 3D. Assim, ele cria uma experiência sensorial com paisagens sonoras, dando a dimensão do que resta de região virgem da Amazônia. A área ainda concentra as mais altas taxas de biodiversidade do planeta. O resultado é impressionante. Alguns barulhos nem parecem terráqueos. O filme acompanha toda a aventura de Monacchi com seu equipamento para realizar as captações, e contou até mesmo com apoio logístico de tribos locais.

Coros do Anoitecer, de Nika Saravanja e Alessandro D’Emilia

Dia é o longa do português André Valentim Almeida. Imagine se os dinossauros tivessem deixado um registro de imagens mostrando como viviam. Pensando em facilitar o estudo da próxima espécie dominante do planeta após nossa extinção, ele realizou esse belo filme, uma verdadeira Arca de Imagens. Valentim parte das ideias de fim dos tempos com a passagem do furacão Sandy e as premonições em relação a 2012.

O cineasta Português André Valentim Almeida, diretor de “Dia”

São imagens de destruição, guerra, intempéries, desastres ambientais, alternadas com registros banais da vida cotidiana (e da sua própria), além de trechos de filmes, costurados com citação de autores, cientistas e cineastas. Questões existenciais também dão o tom da narrativa, mas sem deixar a coisa complexa demais. No fim, a mensagem é como nos relacionamos com o meio ambiente. Como corremos o risco de ficar lembrados como uma espécie peculiar que se extinguiu não por intervenção externa ou predadores, e sim por ter tentado alterar as leis da natureza.

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Cesar Monteiro

Publicado por Cesar Monteiro

Um viciado em cultura pop que adora compartilhar seu vício com o maior número de pessoas possível